
Há algo de irresistivelmente provinciano no espetáculo. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, aparece numa foto extraída do celular de Daniel Vorcaro com um charuto na mão, copos de uísque na mesa e o sorriso de quem finalmente chegou ao clube certo. Ao lado, o banqueiro do Master. Em Londres, no George Club, Mayfair. Não é um encontro de trabalho. É pose. É deslumbramento. É o servidor público bem pago fingindo-se nababo.
Alexandre Garcia foi direto ao ponto quando falou dos protetores de Vorcaro voando de graça. O vídeo não inventa trama: apenas descreve o óbvio que Brasília insiste em tratar como “coincidência social”. Quem protege, quem voa, quem degusta. O banqueiro pagava a conta da fantasia. As autoridades vestiam o figurino. E depois vinham ao plenário falar em “contato breve e banal”.
Gonet chegou a mandar recado – via emissário – do tipo “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”. Não é linguagem de magistrado republicano. É linguagem de convidado ansioso para a festa do rico. O mesmo homem que, dias antes da foto circular, minimizou a relação. A foto não mente. O charuto na mão não é abstrato. É o retrato de quem confundiu cargo com camarote.
No fim, o charuto do Vorcaro não é só um objeto. É um diagnóstico. Mostra uma elite de Estado que já não se contenta em ser bem remunerada pelo ‘contribuinte’. Quer o cenário de filme ruim de nababo tropical – e acha que o povo não percebe o contraste entre a pose em Mayfair e o sermão em Brasília
Dias Toffoli, dono oculto de um resort, pega carona em jatinho para ver jogo de futebol. Quer ter a vida de um empreendedor bilionário que criou riqueza e empregos, sendo apenas um ministro do STF – um que foi reprovado duas vezes na tentativa de se tornar juiz. Recebeu milhões de Vorcaro no seu Tayayá, que tinha os próprios irmãos como laranjas.
Alexandre de Moraes completa o quadro. Jatinho do Vorcaro, desembarque no Santos Dumont, segurança carregando mala, esposa com contrato milionário no entorno do banco. O ministro que jamais teria voado na aeronave do banqueiro… até o vídeo aparecer. A mentira não é o detalhe. O detalhe é o gosto. O gosto de quem quer a vida de magnata sem o risco, sem o capital, sem a responsabilidade de quem constrói empresa – só o prestígio do Estado a abrir pista.
Isso não é “networking”. É breguice de novo-rico institucional. Servidor público no Brasil já ganha o que a maioria da população, que paga a conta, jamais verá. Não precisa de Macallan de dezenas de milhares, nem de charuto cubano, nem de Legacy 650 para se sentir importante. Quem precisa disso revela insegurança de status. Revela que o cargo não bastou. Faltava o adereço do playboy. Zero espírito público.
O republicanismo clássico pedia sobriedade. O juiz, o procurador, o ministro deveriam parecer menores que a função, não maiores que o orçamento de um clube londrino. Aqui ocorre o inverso: a toga vira passe para o buffet do financiador. Depois, quando o banco estoura e a PF abre o celular, todos descobrem que “não havia intimidade”. Havia só uísque, charuto, jatinho e saudade.
Vorcaro não inventou a corte. Ele apenas pagou a conta da vaidade alheia. Autoridades que deveriam fiscalizar o sistema financeiro sentaram à mesa de quem o usava como máquina. Não é só conflito de interesses. É estética de poder atrasado: o bacharel que quer parecer sheik, o togado que quer parecer dono de iate, o PGR que quer o charuto do banqueiro.
No fim, o charuto do Vorcaro não é só um objeto. É um diagnóstico. Mostra uma elite de Estado que já não se contenta em ser bem remunerada pelo “contribuinte”. Quer o cenário de filme ruim de nababo tropical – e acha que o povo não percebe o contraste entre a pose em Mayfair e o sermão em Brasília. Percebe, sim. E o nome disso, sem eufemismo, é breguice com toga.
É corrupção.
Hoje, ser de esquerda no Brasil se resume a defender os magnatas do Estado, aplaudir um ministro autoritário e corrupto financiado por um banqueiro picareta. Igualdade virou slogan barato que ninguém mais acredita. Lula é milionário. Moraes é milionário. Toffoli é milionário. Nenhum deles produziu um único centavo para o país. Não criaram um só emprego. Mas o esquerdista implica com os empreendedores, por conta de uma visão marxista ultrapassada, enquanto enaltece essa corja deslumbrada.
Fonte: Gazeta do Povo

