25 de abril de 2026
Ligia Cruz

Os erros da direita

Alguém tinha dúvidas de que a eleição de Hugo Motta e a de Davi Alcolumbre para as presidências da Câmara e do Senado seriam uma aposta ruim?

Mal começou a gestão e o rapazote já foi cooptado pelas forças ocultas da república. Como diz o ditado: quem sai aos seus não degenera. Há inúmeras denúncias de corrupção contra ele e seus familiares.

Óbvio que ele tem culpa no cartório. Caso contrário, não começaria tão mal a exercer o cargo de Presidente da Câmara, dado a ele em confiança pela maioria dos partidos e parlamentares. Mas ele tinha um precedente que ninguém levou em conta: ele foi contra a soltura do deputado Daniel Silveira, preso por fazer duras críticas ao STF.

A desculpa da direita, liderada por Jair Bolsonaro, para apoiá-lo era a de que a indicação de Motta, do Republicanos, o partido de Tarcísio de Freitas – seu franco apoiador – daria condições de conquistar a maior parte das comissões da casa. E mais que isso, ele colocaria em votação, em caráter de emergência, a lei da anistia para os presos políticos do 8 de janeiro.

Motta prometeu, ganhou o posto e virou a casaca. Traiu a confiança de políticos manjados que ainda acreditam na fada do dente.

Bastou um convite para um jantar na residência de Alexandre de Moraes – que ele deveria ter recusado por questão de lisura – e ele se sentiu integrante do Olimpo. Lá foi acuado e, no dia seguinte, suas promessas já não podiam ser cumpridas. Mudou completamente o discurso e começou a recuar em relação a pôr em votação a anistia para os presos políticos.

Todo mundo conhece as táticas de pressão do Napoleão tupiniquim. Motta foi jantado, arregou e certamente foi lembrado de seus mal feitos.

Imagina-se que seus pecados e influências desde o município de Patos, na Paraíba, foram colocados na bandeja junto com sua cabeça. Isso levando-se em conta que só foram lembrados seus atos na curta carreira política. Mas não se enganem.

Mesmo com 35 anos de idade, o senador já é veterano pois respira a política antes de nascer. Ele é apenas o mais jovem integrante de uma dinastia familiar de políticos profissionais. Pais e avós atuam nessa seara desde antes de seu nascimento. E a folha corrida da parentela toda certamente foi relembrada neste jantar.

Depois da porteira aberta, era só deixar a boiada passar. Não foi preciso nenhum esforço para o senador ser novamente seduzido com um agrado de Lula, para integrar a comitiva de visita ao Japão. E foi na carreata aérea às custas do erário, sem um único trabalho significativo na presidência da Câmara.

Se isso não bastasse, os velhos políticos do Centrão, de quebra, deram a Davi Alcolumbre, o “engavetador do senado”, outra oportunidade para continuar seu ofício a serviço do poder, contra as demandas da sociedade.

Para Valdemar (PL), Kassab (PSD), Marcos Pereira (Republicanos), Rogério Marinho (PL), Bolsonaro, além de PP, PDT, PSB, ele seria o melhor nome para liderar a mais importante instância da democracia. Um senador de um estado que no Brasil tem 360,6 mil eleitores, contra colégios eleitorais como São Paulo, (28 milhões), Minas Gerais (13,7 milhões), Rio de Janeiro (10,9 milhões). Só não é menor do que Roraima com 233,5 mil eleitores.

À época, o senador Marcos Pontes (PL) se rebelou e lançou candidatura própria, como também Eduardo Girão (Novo), para presidirem o senado.

Por discordar do apoio da direita a um nome que jamais esteve comprometido com as demandas do país e foi responsável por engavetar projetos do então presidente Bolsonaro e ações de parlamentares, Pontes foi rechaçado pelo PL.

Quem não se lembra que Alcolumbre se sentou sobre a aprovação de uma data para realizar a sabatina de André Mendonça para o STF? A fritura demorou quase cinco meses. Com ele, mais de 600 processos, 126 habeas corpus e 48 recursos ficaram parados na casa.

Por se rebelar, Marcos Pontes levou um passa-moleque público do ex-presidente, que não se furtou por cobrar por tê-lo feito senador. Essas coisas de lealdade à qualquer preço são complicadas.

Alcolumbre desta vez prometeu colocar os projetos de interesse da direita em votação, inclusive o da anistia. Mas o que ele diz não se escreve.

Já confortável no posto, Alcolumbre diz que o projeto da anistia não é prioridade e adota as velhas práticas de postergar. Ignóbil, mesquinho. Quando a direita vai aprender?

A idolatria, mais que a cegueira do bom senso, é uma falha moral.

Quando se deposita no outro todas as expectativas, sem questionar, não se pode reclamar dos resultados. Bolsonaro errou, Waldemar da Costa Neto, dono do PL, errou; Gilberto Kassab, dono do PSD, errou; Rogério Marinho, do PL, errou; o Republicanos e seu maior expoente, Tarcísio de Freitas, erraram.

E a lista da direita, que votou com a esquerda, agiu como principiante. A direita é burra, não aprendeu nada. A esquerda só vota entre os seus, jamais com a oposição quando se trata de poder.

A direita vai gritar e espernear pela anistia e talvez vença pelo cansaço. E depende do brasileiro para consertar o que eles fizeram.

Enquanto isso, brasileiros estão trancafiados na prisão arbitrária por acreditar em traidores de farda e políticos com viés cognitivo questionável.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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