1 de julho de 2022
Ligia Cruz

O Natal de antigamente

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Certa vez em um Natal nos anos 1960 meu pai foi levar o pernil para assar na padaria de uns espanhóis na avenida. Para mim, uns seis anos, era uma subida infinita que só nosso lulu conseguia percorrer em poucos minutos. Ele ficava lá no topo com a língua de fora, esperando o próximo a chegar.
Adorávamos essa época natalina. A energia era inigualável. A crise era brava também, faltava apenas o diálogo que hoje se tem pela rede, mas os vizinhos eram amigos.
Todos mantinham sigilo e se entreolhavam nas ruas, poucos comentavam coisas da política nacional. Até mesmo numa cidade pequena havia um certo recato em se falar do governo militar.
Descalços e saltitantes, eu e meu irmão mais velho pensávamos em guloseimas na nossa casa e na da vizinha portuguesa, que preparava delícias para as filhas.
Atravessamos a avenida, em frente ao quartel 2°BC, para chegar a um mercadinho que vendia vinho em garrafão. Meu pai ficava feliz com tudo que conseguia realizar. E esse vinho era só uma lembrança de sua amada Espanha. E trazia mais miudezas que minha mãe havia pedido para a ceia de Natal.
Não havia roupas e nem sapatos novos. O banho e o asseio eram o mais importante. Cabelos molhados escorrendo pelas costas refrescavam o calor insuportável que fazia.
Eu duvidava que poderia o Natal ser um dia perfeito. Sempre havia acidentes na avenida, perto do quartel. O sentimento era de medo e alegria.
Os mantecaos surrupiados do pote davam a dica de um dia para se comemorar. A manteiga a granel da feira era cara, não se fazia esse biscoito todo o ano.
Nossa árvore era um galho retorcido, pego no caminho da bica, pintado de prata, com poucas bolas, algodões e cartões que recebíamos de famílias e conhecidos.
Antes de comer tinha a via sacra, só que Feliz, de ir casa por casa cumprimentar os vizinhos, que muitas vezes já se encontravam na rua, fazendo a mesma coisa. Uma diversão na forma de abraços, muitos abraços. Eram pessoas que nos viram crescer em um bairro pobre, que se preocupavam conosco; nos chamavam para subir na goiabeira do quintal ou conversavam coisas engraçadas para rirmos.
Não havia preconceito racial, negros, brancos, descendentes de índios, japoneses conviviam ali em plena segurança para o sossego de nós pequenos.
Nem me lembro do resto, mas das sensações todas eternizadas em cada momento.
Não havia calçamento nas ruas, era areia de praia, valetas abertas na frente das casas. Quando chovia forte alagava, as casas ficavam um barro só.
Assim seguia a vida de uma comunidade que dividia com os vizinhos, abraços, o pouco que tinham, risos sinceros, festas de casamento e também a partida de alguém. Aquela que benzia o quebranto das pequenas crianças, estava sempre com o portão encostado para facilitar o acesso. Quantas histórias. Esse Natal foi feliz. Havia um pouco de tudo que era bom para cada um. Nada de Luxo, de brinquedos muito caros. O melhor era ver o que os outros ganharam e trocar, pedir para brincar um pouquinho. Vezes sim, vezes não. Éramos felizes com o que tínhamos e éramos puros. Mas os principais personagens estavam lá, papai e mamãe, hoje nos protegendo do céu. Os dias de Natal e Ano Novo eram os melhores do ano, hoje o consumismo acabou com as melhores coisas de nossa infância. A tônica era ser e sentir; hoje, só ter e lucrar.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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