4 de julho de 2022
Colunistas Ligia Cruz

A guerra do cancelamento

Imagem: Google Imagens – iBahia

Essa é a primeira guerra em que as contrainformações não usam aqueles códigos secretos do passado e decifradores. Nem mesmo a assinatura de um chefe de propaganda da envergadura de Joseph Goebbels, como na campanha nazista.

Em tempo real, oponentes trocam asperezas com mais efeito do que a temida bomba de fragmentação do momento. De parte a parte, um culpa o outro e têm suas razões.

Na verdade, quem está sendo atacado de fato, se levadas em conta todas as sanções de “A a Z”, é a Rússia. O país está sendo cancelado, em todos os aspectos, não só pelo bloco europeu, mas por vários países mundo afora. Afinal, foi Putin que invadiu outra nação não importa as razões.

É fácil pensar assim de forma simplista, sem levar em conta os antecedentes e todas as suas filigranas.

O Ocidente, termo reavivado desde os tempos da guerra fria, em oito dias tem bombardeado a Rússia em todos os flancos. Na base de “todos contra um”. Sua economia está sendo sufocada. O rublo, moeda russa, já não figura nas bolsas do mundo. Negócios, exportações e importações, operações financeiras – todos cancelados. É como se o país sumisse do mapa. Até mesmo a vacina contra a Covid, Sputinik, teve sua produção paralisada. A pandemia acabou? Não se ouve mais falar dela.

O bloco europeu e as forças da Otan estão mirando Vladimir Putin, o cara frio, racista, “facínora, capaz de ações sanguinária contra civis, criancinhas e perseguidor de judeu — no caso, Volodymir Zelensky, o presidente da Ucrânia. Enquanto isso, a China, postulante à primeira economia do mundo, assiste a tudo com “neutralidade”, anotando os pontos fracos de todos.

Para que um Goebbels, se a web cumpre esse papel, plantando notícias, em todos os idiomas, praticamente sem custo? As narrativas fluem como se todos estivessem à beira de um balcão de boteco.

A história ensina: em tempos de guerra não se deve se comprar verdades, sejam quais forem. Todos mentem e exageram.

Os representantes dos estados têm atuado como tagarelas primários, dizendo que Putin está acabado. Ele, por sua vez, nega as narrativas e garante que os bombardeios não têm alvos civis e que já está acostumado com as sanções. Parece que seus tanques estão passeando pela Ucrânia. Até agora não tomou Kiev porque não quis. Sua força militar é constrangedoramente superior.

O povo russo não quer mais guerras, mas o governo dispersa a multidão. Na Ucrânia, se passa o mesmo. O êxodo rumo aos países vizinhos aumenta dia a dia. Como acabar com isso?

Mas há aspectos contrastantes nesse conflito. Velhos rancores contra a “mama” Rússia acabaram para alguns. Vide o exemplo dos 12 mil chechenos que marcharam à pé, nesta semana, rumo à Kiev, para fortalecer a frente de combate russa. Aliados impensáveis de tempos recentes. Mas nem sempre foi assim.

Esse povo, de maioria muçulmana, no finalzinho dos anos 1990, tentou sair do controle russo, ainda em processo de esfacelamento, e teve seu ímpeto libertário esmagado por ninguém menos que Vladimir Putin.

O território era dominado por militantes separatistas islâmicos, que praticavam frequentes atos terroristas. Em 2002, os separatistas invadiram um teatro, no sul de Moscou, e fizeram 800 reféns. O mundo acompanhou a crise pela TV, que terminou com 274 mortos. Putin reduziu as células fundamentalistas a pó.

É óbvio que em batalhas sempre há tintas em excesso. Essa onda de bandeiras azul-amarelas, que tomou conta das mídias sociais, faz parte de uma engenhosa campanha marqueteira do presidente ucraniano. Enquanto a batalha acontece, ele está no Twitter e em outras mídias teclando, fazendo sua campanha para acelerar o ingresso de seu país na comunidade europeia e ser aceito também como membro da Otan. Uma cartada que fere antigos tratados internacionais, mas que poderá salvar seu governo fraco e corrupto.

O índice de percepção da corrupção de 2021, que lista 180 países, com notas de zero a cem, a Ucrânia ocupa a posição número 32 – conseguiu ganhar até do Brasil que figura no 38° lugar. Transparência pífia.

Enquanto interpreta seu papel de vítima do urso siberiano, o povo ucraniano, que não andava nada satisfeito com seu governo, foi jogado à frente dos canhões. Cidadãos comuns, sem nenhum treinamento, foram armados com fuzis e coquetéis-molotov e mandados para às frentes de batalhas.

Insuflando tudo, numa reedição midiática da guerra fria, o presidente americano, Joe Biden, rege uma orquestra desafinada. Tal como Zelensky, ele tenta frear o baixo índice de aprovação popular do seu governo — bem distante do palco de guerra, sem se envolver.

Os Estados Unidos são veteranos em guerras e que ninguém se esqueça que foi o único país do mundo a usar bombas nucleares contra o inimigo —duas vezes. E que ninguém se esqueça também da guerra do Vietnã, que teve também como pano de fundo a guerra fria.

No mapa da crise, líderes dos países europeus endossam a pataquada inconsequente de Biden. Parece que todos precisam de uma agenda farta de atos heroicos contra o grande vilão. Mas, não fosse a presença da Otan, manietada pelos Estados Unidos desde sempre, tal como a ONU e as outras sopas de letrinhas, nada disso estaria acontecendo.

Mas qual é a hora de parar de atacar em uma guerra? Difícil colocar-se no lugar de Vladimir Putin e de Volodymir Zelensky, neste momento. Ambos têm projetos pessoais em curso.

O ucraniano quer protagonismo e poder. O russo já tem os dois.

Ele tirou a Rússia da maior crise de sua história e governa para 140 milhões de pessoas, de 193 etnias. Quer que os tratados celebrados após a Segunda Guerra sejam respeitados e que seja mantido a neutralidade de países de fronteira. Se não é possível honrar os acordos de paz, haverá guerra.

Sem isso Putin não vai parar e Biden vai continuar rindo com escárnio e pintando o inimigo com seus pincéis.

A Moldávia também requereu o ingresso na UE e Otan.

Parece que é só o começo. O que virá?

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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