8 de maio de 2026
Ligia Cruz

O megashow de Trump no Congresso

Donald Trump fez seu esperado discurso anual sobre o Estado da União para o congresso americano, em 25 de fevereiro passado. O ato é uma formalidade legal e obrigatória, prevista na constituição americana.

Ele falou com desenvoltura, por 1 hora e 48 minutos, dando o tom de uma agenda patriótica, calcada nas premissas defendidas ainda nas campanhas presidenciais, como a “América para os americanos” e “ Make America great again”.

Nem todos da oposição compareceram e os que lá estavam o fizeram por dever de ofício, como se não fosse importante ouvir a prestação de contas do presidente da nação. Isso não é diferente em outros países onde a polarização política é acirrada.

Ante o silêncio da plateia opositora, Trump também não deixou por menos, chamou os democratas de “loucos”, por não aplaudirem questões caras à sociedade, como a segurança de fronteiras e o combate à criminalidade. Trump sendo Trump.

No evento foi embutido um tom heroico, no intuito de trazer para o centro dos debates a volta dos “tempos de ouro”, quando os Estados Unidos faziam a diferença para sua população e para o mundo.

Como num reality show, foram trazidos ao evento como exemplos de patriotismo, um medalhista das Olimpíadas de inverno deste ano, na Itália; dois veteranos combatentes da II Guerra, um dos quais de 100 anos, que foram condecorados com honrarias; um nadador que salvou 165 pessoas nas enchentes do Texas, no ano passado; pais de vítimas de radicais políticos e a presença de Erika Kirk, esposa de Charles Kirk, assassinado por radical político no ano passado.

Nesse pacote nacionalista, Trump deu ênfase ao fim das políticas identitárias de diversidade, equidade e inclusão, pediu pena de morte para assassinos de policiais e defendeu o banimento da transição de gênero do país.

Analistas políticos concluíram que Trump construiu seu discurso com bases nas pesquisas que revelam um declínio de 40% de sua popularidade e críticas à gestão da economia, buscando reverter essa percepção antes das eleições de meio de mandato, a ser realizada em novembro próximo.

Trump afirmou estar no compasso de uma “reviravolta histórica” (turnaround for the ages) na economia e segurança, proclamando uma nova “era de ouro” para o país.

Em relação à política externa ele deu contornos hedônicos a si mesmo e disse que acabou com oito guerras em todo mundo, com destaque para a condução incisiva para dissuadir o Irã a interromper e orquestrar os ataques à Israel, bem como a vitoriosa operação “martelo da meia noite”, que exterminou com uma das bases de enriquecimento de urânio, para a construção da bomba atômica. Ele apresentou argumentos contundentes contra o Irã, alertando que ele não permitirá que o país tenha armas nucleares. O regime dos aiatolás quer a destruição da América.

Outra pérola no enredo trumpista no Congresso foi o bem sucedido resgate de Nicolás Maduro dentro de seu reduto. A operação envolveu a inteligência americana, que acompanhava cada passo do ditador, a marinha com todo seu arsenal de guerra, fazendo pressão na costa venezuelana. Coube ao piloto do helicóptero, Eric Slover, de resgate, alvejado três vezes na operação, a condecoração da mais alta patente do exército.

Ele omitiu do seu discurso os temas polêmicos de controlar a Groenlândia e o Canadá. Talvez tenha sido aconselhado por seu staff a não polemizar.

Trump não deixou de citar a política de tarifas, não sem um muxoxo seu, pelo recente bloqueio da Suprema Corte. Mas ele não vai desistir, mesmo com idas e vindas em taxar esse e aquele país, para forçar melhores preços de alimentos e insumos.

Em resumo, Donald Trump dominou o seu megashow, falando para as câmeras, com voz pausada, expressões faciais coordenadas. Isso ele sabe fazer bem. Difícil é contentar os democratas e convencer os republicanos de que não é um mero populista em busca de reconhecimento. Em país de capitalismo puro o que conta é o resultado, comida farta na mesa e capacidade de compra

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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