Diário da crise XVII

Num comentário de tevê, defendi a tese de que São Paulo era mais vulnerável ao corona vírus não apenas por ser mais cosmopolita, com intensos laços com o exterior, ou mesmo porque é muito populosa.

Para mim, um fator a ser levado em conta era o tempo em que a cidade estava exposta a altos níveis de poluição atmosférica e, consequentemente, altos níveis de doenças respiratórias.

Era apenas um comentário. Vejo hoje no New York Times material confirmando esta suspeição, através de uma pesquisa realizada na Universidade de Harvard.

A pesquisa refere-se aos Estados Unidos, estuda a poluição pelo número de partículas na atmosfera, e conclui que o nível de gravidade do ataque do corona vírus aumenta em cidades mais poluídas. Inclusive aumenta também o nível de mortalidade entre os contaminados.

Esta constatação tem importância no próprio planejamento da saúde, diante de ataques de vírus que atingem o sistema respiratório. Os grupos mais vulneráveis continuam ou sendo os mais velhos, os que têm doenças do coração ou diabetes.

Mas uma outra importante referência de vulnerabilidade é o índice de poluição e o tempo em que os moradores da área estiveram expostos a ela.

Falar em planejamento agora é um pouco romântico. Estamos pura e simplesmente correndo atrás dos fatos. Mas de qualquer maneira, já é possível afirmar que as cidades mais poluídas precisam ser contempladas com mais unidades intensivas e respiradores.

A medio e longo prazo, no entanto, a questão da qualidade do ar precisa de um esforço específico, de regras mais severas para a produção.

Sempre vai existir aquelas pessoas que dizem que isto atrapalha a produção, que somos inimigos do progresso etc. Tem sido essa a tática do governo atual.

Mas as pessoas que foram atingidas ou mesmo sentiram o medo de contaminação vão compreender claramente a necessidade de uma atmosfera menos poluída.

Não sei se esta mensagem será entendida no futuro. Há quantos anos não dizemos que água limpa é essencial e que saneamento básico é um fator determinante na nossa saúde?

Como diz o urbanista Vicente Loureiro em seu artigo sobre o que será visto como essencial no futuro das cidades não apenas o saneamento básico mas habitação decente será um tópico decisivo.

Como enfrentar o corona vírus sem água, como as crianças podem brincar com esgoto a céu aberto, como se proteger m casa quando há uma epidemia e casa é apenas um abrigo precário?

As pessoas que decidem o futuro no Brasil tem água corrente, saneamento e casa decente. Ainda assim hesitam em escolher as prioridades óbvias.

No caso do ar puro espero que percebam que estão todos expostos. Isso talvez possa impressioná-las, espero.

Fonte: Blog do Gabeira

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