
No Brasil, o crime evoluiu, modernizou, fez pós-doutorado. Já a segurança pública está procurando onde liga o wi-fi.
Pela segunda vez — SEGUNDA! — fui vítima de um crime cibernético. E, como sempre, o golpe foi tão bem executado que até o FBI teria batido palmas. Mas família é família, e nada deixa um parente tão feliz quanto te lembrar que a culpa é sua, sua e exclusivamente sua.
“Como você cai num golpe desse jeito?”
“Você tinha que desconfiar!”
“Uai, mas você nem é tão velho assim!”
O que me intriga, de fato, é o “tão”. Significa que velho eu sou — apenas não o suficiente para justificar meus erros. Sou um modelo em transição: velho light, idoso versão beta, prestes a ser atualizado para Alzheimer 1.0. Nada como o carinho familiar para te diagnosticar gratuitamente com demência leve. Ou já moderada? Há controvérsias!
Resumo da ópera: perdi 16 mil reais em 2 minutos conversando com minha “filha” Luiza no WhatsApp. Tudo, absolutamente tudo, me dizia que era ela. Até a doçura! A gentileza! A conversa fluía tão bem que até eu, o tal do não-tão-velho-assim, me rendi. Pois é: era uma Luiza fake. Uma versão dissimulada, pirata, clandestinamente doce.
Quando percebi o golpe, com a fina ironia diagnóstica da Thaïs, que não só identificou a fraude como me classificou oficialmente na categoria “idoso em prévia instalação de obsolescência” — mantive a conversa com a golpista para conseguir o flagrante na Polícia Civil, tida e havida como a CIA dos crimes cibernéticos.
Ingênuo.
Cheguei na unidade “super especializada”. Especializada em quê, até hoje não sei. Talvez em me fazer perder as esperanças. O ambiente tinha a atmosfera de filme pós-apocalíptico, só que sem os efeitos especiais. Um ventilador de teto girando na velocidade “agônico”, poeira histórica, e servidores públicos que me olharam como se eu estivesse atrapalhando o nada que estavam fazendo.
Expliquei sobre o golpe, o flagrante, a conversa em andamento.
Eles me olharam com a compaixão de um prédio abandonado.
“Aqui só atendemos casos acima de 150 mil.”
Claro. Roubou 16 mil? Parabéns: você é apenas um detalhe estatístico, indigno de atenção. Crime leve. Furto emocional. Um resfriado financeiro.
Mas, num gesto magnânimo, me mandaram para outra unidade. A diferença entre elas? O CEP e o nível de poeira. De resto, o mesmo: indiferença, descaso e a convicção de que o bandido é o verdadeiro cliente do sistema.
Saí de lá convencido de que estamos absolutamente à mercê. Vulneráveis. Expostos. Protegidos por uma rede de segurança com mais buracos que queijo suíço, só que sem o sabor.
Ao avistar um posto móvel da PM, senti uma esperança tímida. Fui tratado com respeito, educação, boa vontade… parecia uma simulação, uma experiência imersiva de “Brasil possível”. Cheguei a olhar ao redor, pensando: “Perdão, isso aqui é Genebra?” Não! Era apenas um paraíso cordial… absolutamente inútil e inofensivo contra o crime digital.
Se a eficiência fosse proporcional à simpatia, o crime estaria resolvido antes do BO terminar de imprimir.
Mas não estava. Porque, no fim, somos assim: 10% esperança, 90% “ah, Brasil…”.
Incompetência!
Incompetência?
Será?
Sei não…

