25 de maio de 2026
Carlos Leão

“Quim” e o mistério da arte que nasce pronta

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Há histórias que parecem escritas pelos livros. Outras parecem escritas por Deus. A de Quim pertence à segunda categoria.

Há artistas que estudam a vida inteira para aprender a pintar. Outros simplesmente nascem sabendo conversar com a alma das cores. Quim pertence a essa segunda espécie rara — aquelas que parecem ter recebido o ofício antes mesmo de compreender o mundo.

Entrei na exposição do Quim ontem, pela manhã. Dessas que começam sem promessas. Mas há momentos em que algo invisível decide nos surpreender. Foi assim. Diante daquelas telas pequenas, despretensiosas, senti algo difícil de explicar: uma paz, uma quietude interior, quase uma oração silenciosa feita de cores.

Não eram apenas pinturas. Eram pedaços de vida.

Quim pinta como quem respira. Sem teoria, sem escola, sem manual. Pinta como quem colhe lembranças no quintal da infância. Há nas suas cores algo de menino e algo de eternidade.

Sua história começa longe das galerias e dos vernissages. Nasce pobre no interior do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais — desses lugares onde a infância muitas vezes não tem tempo de brincar. Enquanto outros meninos corriam atrás de bola, Quim corria atrás do sustento. Capinava a terra, ajudava o pai, quebrava pedra com marreta pequena na pedreira de São João Evangelista.

A vida lhe negou os livros. Nunca aprendeu a ler. Assina apenas o próprio nome — gesto simples que, para ele, já é uma conquista. Mas a vida, quando fecha uma porta, às vezes abre uma janela para o infinito.

Quim não leu os mestres da pintura. Não conhece tratados estéticos nem manifestos artísticos. Ainda assim, suas telas passeiam com uma liberdade desconcertante entre o naïf, o abstrato, o surreal e até algo do concreto — como se ele atravessasse séculos de história da arte guiado apenas pela intuição.

E talvez seja justamente isso que emociona.

Porque enquanto muitos artistas procuram uma linguagem, Quim simplesmente fala.

Em 2017, um colecionador de arte entrou em sua casa simples e encontrou três pequenas telas de 15 por 15 centímetros penduradas numa parede humilde. Mas havia ali algo maior do que qualquer medida: havia verdade.

Às vezes penso que certos encontros já estavam escritos em algum lugar do universo.

Foi o caso daquele.

Quim, que foi servente, pedreiro, carroceiro e pintor de paredes, descobriu que as cores que espalhava nas casas também habitavam dentro dele. E quando começaram a sair, saíram como quem encontra finalmente o caminho de volta para casa.

Certa vez ele disse, com a simplicidade que só os grandes possuem:

“Eu não pinto pra mim. Eu pinto para os outros acharem bonito.”

Essa frase, aparentemente ingênua, carrega uma delicadeza rara. Porque talvez seja isso mesmo que a arte deveria ser: um gesto generoso oferecido ao olhar do outro.

Ao sair da exposição, tive a sensação de ter presenciado algo que ultrapassa o talento. Algo metafísico. Algo que toca o mistério.

Quim não estudou arte.

Mas a arte, ao que parece, estudou cuidadosamente o coração dele antes de escolhê-lo.

E quando isso acontece, não há crítica, teoria ou academia que explique. Mesmo porque “a arte existe porque a vida não basta”

Só resta sentir.

E agradecer.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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