
O problema do Brasil é quando nossos heróis nāo reconhecem a própria pátria na camisa que vestem.
Não. Nós não perdemos para a Noruega. Perdemos para nós mesmos. E vou explicar por quê.
Era para estarmos hoje diante da televisão sonhando com uma semifinal. Em vez disso, assistimos à Noruega ocupar o nosso lugar.
E, curiosamente, ela nos deu uma aula.
Não exatamente de futebol.
De pertencimento.
Os noruegueses não venceram apenas porque correram mais.
Venceram porque carregaram para o campo uma história de mais de mil anos.
Relembraram seus guerreiros vikings, celebraram seus símbolos, remaram juntos como fazem há séculos.
A torcida remou. Os jogadores remaram. Até o Parlamento remou.
Quando um povo conhece sua história, até um jogo de futebol se transforma numa declaração de identidade.
Os noruegueses levaram Haaland para os fiordes, para a história e para o coração do país.
Nós preferimos transformar nosso maior ídolo em um jogador home-office.
Eles aproximaram o herói do povo.
Nós afastamos o povo do herói.
Não é uma questão de talento. Nunca foi.
É uma questão de pertencimento.
Enquanto isso, muitos dos nossos pareciam mais preocupados com as férias interrompidas, com o corte de cabelo, com contratos de publicidade e com a próxima coleção de relógios.
Faltou o principal: compreender que vestir a camisa do Brasil não é apenas uma profissão. É um privilégio.
Mas calma.
O Brasil já fez coisas muito mais difíceis do que ganhar uma Copa.
É a terra dos Pedros, de Isabel, de Tiradentes, de Zerbini, de Pitanguy. É a terra de Pelés, Romários, Ronaldos e de tantos brasileiros que transformaram talento em legado.
Essa história continua sendo nossa.
Não há derrota eterna. Assim como não existe vitória perpétua.
Talvez esta eliminação seja exatamente o choque de realidade de que precisávamos.
Para lembrar que o Brasil nunca venceu apenas porque tinha os melhores jogadores.
Vencia porque tinha identidade. Porque tinha alegria. Porque tinha irreverência. Porque tinha coragem de ser Brasil.
O talento continua aqui. Esqueçam a Europa.
O que anda desaparecido é o orgulho de representar esta camisa.
E tenho uma convicção: não há mal que sempre dure.
Assim como um dia exorcizamos tantas derrotas, também vamos exorcizar o 7 a 1, esta melancolia que hoje nos acompanha.
Porque a história do Brasil nunca terminou.
Ela apenas está esperando que nós brasileiros voltemos a escrevê-la.
O problema do Brasil nunca foi falta de heróis. O problema é quando deixamos de reconhecê-los… ou quando nossos heróis já não reconhecem a própria pátria na camisa que vestem.

