
“Tanto riso, oh! quanta alegria”… será mesmo ou o carnaval de hoje é mero ópio do povo?
Pra escrever sobre o Carnaval de hoje, eu precisava de um laboratório confiável. Fui a campo. Eu, Thaïs, nossos dois Spitz — Vic e Bartô — e muita curiosidade.
Caminhamos pela Savassi, aqui em Belo Horizonte, hoje um dos maiores polos carnavalescos do país, acompanhando alguns bloquinhos pré-carnavalescos, já que de sexta a quarta oficiais, torna-se enredo para “Missão Impossível 9 – O Carnaval de BH” e, sobretudo, um teste de resistência humana.
Enquanto andávamos, lembrávamos de antigas marchinhas e canções de Momo. Impressionante como muitas continuam atualíssimas — e reveladoras.
Elas ajudaram a iluminar algo que me incomodou profundamente: a alegria parecia… ensaiada. Uma pseudo felicidade – meio protocolar, meio hipócrita, vestida com roupas e adereços tão diferentes de outros carnavais. Uma festa burocrática fantasiada de politicamente correto.
Não vi “Nega Maluca”, “Índio”, “Cigano”. Sumiram. Hoje, essas fantasias são tratadas como apropriação cultural indébita. Um ataque frontal aos afrodescendentes, aos indígenas e aos zíngaros itinerantes.
Um deboche, um racismo velado, uma xenofobia explícita. Fantasiar-se de doméstica ou enfermeira, então? Nem pensar. Tornou-se uma relação de poder, sexualização, machismo estrutural.
Tudo proibido no baile. Nem Fellini, no auge de sua imaginação delirante, criaria um Carnaval tão vigiado.
Procurei uma fantasia de palhaço. Não encontrei. Talvez porque já somos todos palhaços — sorrindo por obrigação. “Ave cerveja! Ave cachaça!”, os verdadeiros combustíveis dessa pseudo-alegria.
Cadê a brincadeira ingênua, gente? Cadê a irreverência espontânea? O Carnaval parece ter virado apenas quatro dias para beber demais, liberar tudo e tentar esquecer as dores do cotidiano, da política e da vida.
Curioso é que as mesmas marchinhas que hoje causariam cancelamento geral falavam sem filtro do Brasil real — com seus excessos, contradições e preconceitos. Erravam? Sim. Mas eram livres.
O politicamente correto nasceu com um objetivo muito nobre: combater a exclusão e o preconceito. Nota dez na intenção.
O problema é que perdeu a mão. Tornou-se censor, controlador, uma nova forma de ditadura do pensamento — inclusive no Carnaval.
Verdade é que no meio da multidão, somos “mil palhaços no salão da pátria”. Arlequins que sorriem, mas choram pela liberdade. Eu sigo com alegria represada, guardada. Esperando aquele Carnaval que ainda não chegou.
Mas chegará.
Talvez até mais cedo do que muita gente imagina. 🎭✨

