6 de março de 2026
Ligia Cruz

Viva a bunda!

Imagem: UOL

Todo mundo preparado para o festival de bundas e peitos? O Brasil é o primeiro do ranking no quesito. E tem para todo gosto. Brasileiro é “bundão”.

E o pior é que a maioria que se vê na mídia não é original. É silicone líquido, pago a peso de ouro para cirurgiões plásticos, que ganham muito com a arte de inflar. Pernões também siliconados, igualmente esculturados e endurecidos com muito exercício e clara de ovo. Que coisa triste o ser humano se tornou.

Esse é o Carnaval das telinhas, do samba carioca e paulista, da pipoca baiana, dos enredos maçantes e reeditados à exaustão com temas de escravagismo, religiões afro e algo de história. Até os orixás estão fartos porque, entra ano e sai ano, é a uma mesmice pobre, que não os dignificam.

E boa parte do país, onde não tem a festa profana, o povo sai às ruas apenas para se divertir ou ignora tudo isso – talvez a maioria. No mais é um espetáculo questionável que não traz nada de produtivo para ninguém. A não ser para bicheiros, traficantes, corruptos e donos de escolas e blocos, que se fartam das verbas públicas e os patrocínios.

Há quem diga que isso é cultura. Mas não é. Não sobra nada depois do Carnaval. Foi-se o tempo das marchinhas que arrastavam multidões pelas ruas, muitas das quais com críticas políticas, assimiladas pelos foliões.

A juventude, que hoje sai nos blocos no desvario, é turbinada pelas drogas que correm soltas em meio à multidão, onde ninguém é de ninguém. Não se tem a exata noção dos riscos dessa “azaração”, como eles mesmos dizem.

A desesperança de momentos frugais de pura irresponsabilidade como esses levam a consequências irrecuperáveis todos os anos: overdose, estupro, roubo, briga, ferimentos, morte e uma avalanche de tristezas na apoteose.

As bundas e peitos inchados, o samba no pé direito ou esquerdo não farão a revolução política e de costumes que o país precisa. Apenas distraem aqueles que já se divertem com qualquer coisa e ignoram a responsabilidade para com a nação.

Depois vem a ressaca e o tempo para pensar. Quem vive disso, toca em frente, mantendo os glúteos sarados para o próximo Carnaval, até um dia desabarem pela ação do tempo. Mas os normais terão que se contentar com seus traseiros apenas para sentar.

Mas neste ano vai ter cabrocha nova na pista para homenagear o maridão, “hors concours” em corrupção. Propaganda política fora de hora no formato de samba enredo, aprovada pela suprema corte, é o descalabro do desrespeito às instituições, daquelas “exceções permitidas”, como favor desavergonhado nesses tempos de arbítrio jurídico. A avenida será pequena para tanto mau gosto, pago pelos cofres públicos.

Já aos pobres mortais restam as contas das fantasias para quem as comprou e dos excessos cometidos. Os políticos já têm seus rega-bofes o ano inteiro, onde – se diz – rola muita bunda também. E viva o Brasil! Das bundas e dos bundões.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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