16 de abril de 2026
Carlos Leão

Dizem que Darwin explicaria isso… será?

Nem toda adaptação é evolução — algumas só viralizam. Será?

A geração entre 55 e 70 anos talvez seja a mais privilegiada da história da humanidade. E não, não é só porque viveu sem celular, sem internet, sem GPS ou sem Pix — embora sobreviver a filas de banco já nos credencie a qualquer prova de resistência emocional.

É porque atravessamos dois mundos.

Um mundo analógico, onde “tempo real” era esperar o café passar e “carregando” era só a sacola de supermercado.

E outro digital, onde tudo acontece ao mesmo tempo — inclusive a nossa confusão.

Nós vimos o mundo sair do zero e ir direto para o infinito. Sem manual de instruções. Sem botão de “desfazer”. Sem aquele sobrinho por perto pra dizer “é só atualizar”.

E ainda assim… aprendemos.

Com algum esforço, algum susto e, convenhamos, alguns cliques errados que jamais serão confessados em público.

Talvez por isso a gente olhe pra certas coisas hoje com um sorrisinho enviesado. Não é desprezo. É experiência mesmo. É quem já viu fita cassete rebobinar com caneta e agora vê inteligência artificial escrevendo poesia.

E aí chegamos ao presente.

Esse lugar curioso onde profissionais respeitáveis — médicos, advogados, engenheiros e até figuras que antes só apareciam em retratos sérios — resolveram… dançar.

Surgiu então a tendência do “Será?”.

“Dizem que sou cirurgião plástico. Será?”

“Dizem que sou especialista. Será?”

E lá está o cidadão, que passou décadas estudando, se especializando, salvando vidas ou defendendo teses, agora dando passinhos coreografados como se estivesse concorrendo a uma vaga no grupo de dança da empresa.

Não se discute aqui a força da propaganda, nem o poder dos algoritmos — essas entidades invisíveis que hoje mandam mais que muito chefe antigo.

A questão é outra.

Em que momento da história alguém concluiu que credibilidade se constrói melhor com rebolado do que com reputação?

Nós, da velha guarda — que sobrevivemos ao orelhão, ao cheque pré-datado e ao VHS que comia fita — não somos contra a evolução.

Muito pelo contrário.

Somos praticamente um estudo de caso da teoria de Charles Darwin. Adaptamo-nos bravamente. Migramos do papel carbono para o touchscreen sem maiores traumas — alguns pequenos, talvez, mas nada que um neto não resolva.

Mas até Darwin, se estivesse por aqui, talvez olhasse certas cenas e coçasse a barba com certa dúvida científica:

“Será que isso aqui é evolução mesmo… ou já é outra coisa?”

Falemos de nós, médicos.

A Medicina sempre teve um certo ritual. Uma liturgia silenciosa. Um compromisso que não combina muito com coreografia sincronizada e trilha sonora chiclete.

Porque no fim das contas, a confiança do paciente não deveria depender da habilidade do médico em acertar o passo no refrão.

Mas talvez eu esteja sendo antiquado.

Talvez o estetoscópio esteja mesmo a um passo de ser substituído por um ring light.

Talvez o juramento venha agora com filtro e legenda.

Ou talvez — e aqui vai um palpite arriscado — ainda exista um limite invisível entre se adaptar ao mundo e virar refém dele.

A nossa geração não só sobreviveu às mudanças.

Ela viveu.

E talvez por isso saiba reconhecer quando está diante de um grande avanço… e quando está apenas assistindo a um pequeno espetáculo de constrangimento coletivo em alta definição.

Mas enfim…

Dizem que isso é evolução.

Será?

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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