16 de fevereiro de 2026
Tecnologia

São Paulo e a tecnologia de fachada: o caos como política pública

Mais um ano, mais um apagão, mais uma São Paulo de joelhos. A cidade que adora se vender como a “locomotiva financeira do Brasil” volta a operar no modo várzea sempre que o céu resolve fazer o que sempre fez: chover, ventar e lembrar que o clima mudou, menos para quem governa e presta serviços essenciais.

Nada disso é novidade. O que surpreende não é o caos, mas a naturalização da incompetência. Falta planejamento, falta gestão de riscos e, sobretudo, sobra tecnologia usada apenas como peça de marketing. Em São Paulo, a inovação não serve para evitar problemas; serve para compor slides, discursos e posts patrocinados.

A Prefeitura é um exemplo emblemático. Ostenta o “Smart Sampa” como se fosse um marco civilizatório. No Carnaval de 2024, vendeu drones, câmeras e capturas cinematográficas de foragidos como prova de modernidade. Mas quando o assunto é o básico, como saber quantas árvores existem na cidade, onde estão e em que estado se encontram, o sistema entra em modo analógico. Não há mapeamento decente, não há prevenção e, claro, não há responsáveis quando tudo dá errado.

E dá errado todo ano. Árvores caem, ruas fecham, bairros inteiros ficam no escuro. Sempre tratados como “eventos excepcionais”, apesar de serem absolutamente previsíveis. A ironia é cruel: o Brasil tem um dos sistemas meteorológicos mais respeitados do mundo. Não é preciso inteligência artificial, basta ligar a televisão. O aviso vem. O problema é que ninguém faz nada com ele.

Do outro lado está a Enel, concessionária de energia elétrica em uma das cidades mais caras do planeta. Cobra caro, entrega mal e se comporta como se tempestades fossem um fenômeno recém-descoberto pela ciência. É impossível levar a sério a ideia de que uma multinacional desse porte não possua um centro robusto de gerenciamento de riscos climáticos, ou um plano de continuidade de negócios minimamente funcional.

Se possui, não funciona. Se funciona, não é usado. Se é usado, o resultado é invisível. Em qualquer cenário, o consumidor é tratado como figurante de um experimento fracassado. Não há investimento visível em analytics, correlação de dados, simulações de impacto ou planos reais de crise. O lucro é previsível; o serviço, não.

O Governo do Estado completa o tripé da ineficiência. Muito discurso, muita pose técnica, pouca execução. Dados meteorológicos existem, alertas são emitidos, mas parecem morrer em alguma mesa burocrática antes de virar ação coordenada entre estado, prefeitura e concessionárias. A sensação é de que cada um joga para a plateia enquanto a cidade afunda, literalmente.

O mais grave é perceber que não vivemos um problema de falta de tecnologia, mas de falta de vontade, competência e responsabilidade. São Paulo não sofre com a ausência de inovação; sofre com gestores que preferem o espetáculo da modernidade à sua aplicação prática.

Seguimos, assim, vivendo no “futuro do passado”: cercados de dados, sensores, sistemas e promessas digitais, mas reféns de um modelo de gestão primitivo, reativo e incapaz de antecipar riscos óbvios. A população, como sempre, aprende a se virar sozinha, comprando geradores, lanternas e paciência.

Enquanto isso, o poder público e os prestadores de serviço continuam vendendo a ilusão de um amanhã tecnológico, mesmo sendo incapazes de lidar com a chuva de hoje.

Bruno César Teixeira de Oliveira, com uma carreira sólida na gestão de riscos, compliance e prevenção a fraudes em instituições financeiras.

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