
Desembarcar dos aviões brasileiros logo estará entre os esportes olímpicos mais radicais
Outro dia falei aqui sobre como sobreviver ao aeroporto brasileiro. E, naquele texto, prometi falar também sobre como sobreviver ao desembarque.
Pois bem. Chegou a hora.
Pousamos.
O avião ainda está taxiando e eu já começo a ouvir os estalidos dos cintos sendo soltos.
O aviso luminoso continua aceso. O comissário pede para permanecermos sentados.
Ninguém dá a mínima.
Aliás, tenho a impressão de que, para boa parte dos passageiros contemporâneos, qualquer aviso luminoso ou sonoro é apenas uma sugestão.
O avião chega ao finger e começa o espetáculo.
Metade dos passageiros já está de pé.
Alguns espremidos nos estreitos corredores. Outros permanecem parados em seus lugares, mas de pé e encurvados, porque o bagageiro já está praticamente disputando espaço com a cabeça.
E há aqueles que se posicionam diante da porta antes mesmo dela abrir.
Como se tivessem medo de que o finger fugisse.
A porta nem bem abriu, já começa a retirada das malas.
E aí é cada um por si.
Passageiro arrancando a bagagem do compartimento com aquela delicadeza angelical.
E quem está sentado no corredor fica exposto a todo tipo de agressão: malas na cabeça, mochilas no rosto, cotoveladas no ombro.
Como diz meu amigo e grande cronista Dênis Calazans, “mochiladas são menos letais, mas igualmente desagradáveis.”
E existe ainda o cidadão que, por esperteza, senta na fileira 19 e coloca a mala na 2.
Esse, quando o avião para, transforma o corredor numa pista de atletismo.
O problema é que o cidadão da 2 pode ter colocado a mala na 15.
E aí ele faz o percurso na contramão, empurrando todo mundo como se tivesse comprado o corredor.
Tem também o sujeito que finalmente consegue retirar a mala do bagageiro e, em vez de seguir, simplesmente para, olhando pra bagagem.
Enquanto atrás dele se forma uma fila de 70 pessoas.
É quase uma instalação de arte contemporânea.
Durante a pandemia, tivemos uma experiência civilizatória curiosíssima: desembarque por fileiras.
Funcionava.
Era rápido, organizado e, principalmente, indolor.
Por que não ficou?
Talvez porque o problema não esteja apenas na educação que recebemos na escola.
Educação também é hábito.
É respeito pelo espaço do outro.
É entender que chegar cinco minutos antes não nos dá o direito de atropelar quem chegou conosco.
Talvez o desembarque brasileiro seja apenas um retrato do Brasil: O avião pousa.
Mas nós, aparentemente, ainda não.

