
Uma hora a imprensa vai sair deste estado de torpor e cumprir seu papel. É o que se espera de profissionais ilibados e cientes do compromisso com a verdade dos fatos. É possível sobreviver sem preço e sem o peso da cumplicidade com o sistema.
O que hoje se vê na mídia, salvo raras exceções, não é jornalismo. É o que chamamos de publieditorial, matérias pagas, com a diferença de que hoje se vende o veículo inteiro, pela militância.
Não há mais independência, nem lisura. A relação entre a mídia e o governo se tornou umbilical, orgânica e devassa. Os jornalistas, antes reservas morais, hoje são defensores da verdade absoluta que o sistema impõe.
A arrogância dos perpetradores dessa verdade padronizada, sem oposição, é o breu da alma livre e pensante.
Divergir é crime, sair da caixa é politicamente incorreto, não ser de esquerda é pecado capital, não ser militante é ser alienado. Ser livre, então, sinal de demência.
É triste ver profissionais de imprensa currando colegas, censurando suas liberdades de pensar, cobrando publicamente uma postura ideológica que não se deve ter.
Jornalista de fato, investiga, informa, instiga, provoca, denuncia, mas não impõe verdades. Não é essa a sua função.
Quando a imprensa se vende e deturpa os objetivos dos princípios constitucionais não há mais o fiel da balança na sociedade. Não há quem exerça a vigilância, o contraponto. E esta é a dura realidade que hoje vigora no país.
O medo é que falte o arrepio que levanta a crista diante do arbítrio. Se instale o silêncio da conivência e da conveniência. Já estamos neste estágio.
Dias destes, me veio à mente a realidade vivida pelo povo romeno antes de a ditadura de Nicolae Ceaucesco cair.
Ninguém confiava em ninguém. Quem contestasse o regime era sumariamente morto pelo esquadrão de fuzilamento.
Nos 45 anos que a Romênia foi governada pelo caudilho e a mulher, Helena, o país caiu em desgraça. Não havia sequer unidade familiar. Filhos delatavam os pais por divergirem do sistema. A censura era lei oficial e pessoal.
Até que um dia, durante um comício Nicolae prometeu melhorar a previdência social e as aposentadorias. Migalhas diante do império que construiu para si às custas do sofrimento do povo.
A reação popular foi instantânea e de hostilidade àquele que censurou, proibiu, aprisionou, matou dissidentes e destruiu famílias.
A revolta dos romenos atingiu um nível dramático de embate com as forças de segurança do governo. A desordem se instalou e deixou mais de 1.500 vítimas, muitas das quais desarmadas.
O ditador fugiu de helicóptero do seu quartel para um refúgio.
E o que se seguiu foi o desfecho de um capítulo sombrio da história que não perdoa os ditadores.
O casal do governo foi entregue ao exército três dias depois da rebelião. Num dia de Natal, 25 de dezembro de 1989, após o julgamento de apenas duas horas, Ceauseco e Helena foram executados pelo próprio pelotão de fuzilamento.
A ditadura, o cerceamento das liberdades democráticas e a censura deixam marcas profundas em uma nação.
Aqueles que hoje gritam contra a anistia aqui no Brasil são figuras egóicas que não estudaram e se esqueceram a dor que o arbítrio e a falta de liberdade causa. Alguns por pura ignorância.
É por essa senda que o Brasil caminha. Já começaram as delações, as brigas e os cancelamentos entre amigos e famílias. É uma tragédia anunciada.
E a imprensa omissa tem muita culpa nisso tudo porque deveria refletir sobre a conjuntura, denunciar os desmandos, a corrupção, a roubalheira, o desmonte das instituições e o desrespeito à constituição. Por servir de instrumento de um regime de exceção que vem evoluindo há pelo menos oito anos.
A história é regada de exemplos de que os rumos que estamos tomando não são bons.
Se já nos aproximamos da realidade venezuelana, podemos dizer que há pontos de semelhança com a da Romênia também. O futuro do Brasil é incerto e falemos enquanto ainda podemos. Hoje o papel da imprensa livre cabe a cada um de nós brasileiros.

