
Se a coisa tá preta, relaxa: geralmente é coisa boa.
Antes de começar, vou logo cravando: não existe coisa mais asquerosa na humanidade do que o racismo. Ponto.
Agora… quase tão chato quanto racista é aquele sujeito que faz carreira no vitimismo, surfando na onda do famigerado “politicamente correto”. É o típico “coitadinho profissional”, que transforma a vida num eterno pedido de indenização.
Dito isso, vamos ao que interessa.
Outro dia, zanzando pelo Instagram (essa grande feira livre da humanidade), trombei com um trecho de stand-up de um comediante preto — palavra dele, não minha. O cara já ganhou pontos comigo logo de saída: segundo ele, “Negro” é invenção dos portugueses e dos politicamente corretos de plantão. Ele prefere “preto”, como os africanos raiz.
A piada começou assim: “a língua portuguesa não ajuda os negão”. E olha… ele tem razão. Quer ver?
Marginal na família → ovelha negra
Lista de marginais → lista negra
Faltou luz → blackout
Fome braba → fome negra
Morreu alguém → luto (e qual é a cor do luto? Preto.)
Vida ruim → a coisa tá preta
Algo escondido → tá obscuro
Falar mal → denegrir
Não pagar imposto → sonegar
Resposta ruim → negação
Ou seja: se você é preto, atenção! O português inteiro já tá contra você.
E aí alguém pergunta:
— “Você tem orgulho de ser preto?”
E o cara solta:
— “Orgulho? Não. Orgulho eu tenho do que eu faço de bom. Ser preto pra mim é igual ter orelha. Você já viu alguém bater no peito e falar: EU TENHO ORGULHO DE TER ORELHA?”
Nesse ponto eu pensei: eis aí um ser humano bem resolvido. Nada de mimimi, nada de hashtag chorosa, nada de ficar cutucando branco com vara curta. Só humor, inteligência, ironia e uma baita elegância pra desmontar preconceito sem discurso de palanque.
E quer saber? Nossa bendita “última flor do Lácio” (acusada de racista de vez em quando) também se redime, porque guarda algumas das coisas mais maravilhosas justamente na cor preta:
Café preto (sem açúcar e sem frescura).
Feijão preto e feijoada (Patrimônio da Humanidade).
Chocolate amargo (ou seja, preto com pedigree).
Pérola negra, safira negra, diamante negro. Tudo joia rara.
Nosso petróleo, também conhecido como ouro negro.
E os bichos então?
Pantera negra (mais charmosa que muito galã de novela).
Cisne negro (puro mistério).
Urso negro (muito mais estiloso que aquele ursinho branco da Coca-Cola).
E ainda tem os sonhos de consumo universais:
Ser faixa preta.
Ter cartão black.
Usar lingerie preta (a mais mortal de todas as cores).
Ganhar uma nota preta.
Ter uma grana preta.
Rejuvenescer em lama negra.
E curar-se numa areia preta.
Ou seja, meus amigos, ser preto dá lucro, charme, poder e até rejuvenescimento.
Então, pretos do mundo, não se vitimizem. Lembrem-se de uma verdade absoluta da vida: o papel higiênico é branco.
E, no final das contas, não precisamos ser pretos para lutar contra o racismo. Basta ser humano — de preferência um humano que não seja babaca.
Ilustração: Dani Cavallari

