
O Brasil estava numa fossa daquelas. Tantos problemas. Escândalos, abusos do STF, passividade da sociedade. Crimes, inflação, a p**** toda. E este ano ainda tem as eleições, que só fazem aumentar o estresse do pobre coitado. “No meu tempo de berço esplêndido é que era bom”, pensou o Brasil antes de sair para o bar. “China, eu vou lá no bar com uns amigos e já volto”, disse ele para a esposa controladora. Mas não esperou pela resposta. Foi.
Chegando lá no bar, os amigos dele não estavam. O Irã porque não bebe. Ao menos não assim, em público. A Nicarágua porque está ocupada em se metamorfosear numa ditadura escancarada. A França disse que vinha, mas sabe como é que é. A Coreia do Norte está de dieta. A Argentina não fala mais com ele. E a Venezuela porque não sei. “Garçom, me vê um Macallan”, pediu o Brasil e o garçom fez tsc, tsc, tsc. É que o garçom é do tempo em que o Brasil pedia cachaça. No máximo uma caipirinha.
Ressaca
O Brasil virou uma, duas, três doses de Macallan. “Vai ter como pagar a conta?”, perguntou o garçom ao servir a quarta dose. Já com a voz pastosa, o Brasil respondeu que era para pendurar na conta do Vorcaro. E começou a desfiar um novelo de dramas. Esses que estão nas manchetes da Gazeta do Povo. “Até com a minha Constituição eles acabaram. Eu tô devendo até as calças! Pô, a Argentina não fala mais comigo. Depois de tudo…”, disse ele e o garçom lá, tendo o ouvido por penico a se encher das mazelas alheias.
“E tudo por causa da China?”, perguntou o garçom, fingindo interesse. Brasil fez que não. Respirou fundo. E disse que nah, de jeito nenhum, a China é linda, sem ela eu não sei o que faria, o problema sou eu mesmo, que fiquei totalmente dependente dela. “Até com os Estados Unidos eu briguei por causa da China!”, disse ele, rindo aquele sorriso triste de quem se sabe preso a uma relação tóxica. “Mais uma”, pediu, levantando o copo e fazendo um brinde ao povo que na manhã seguinte vai sofrer com a ressaca.
Para Luís Ernesto Lacombe, por causa desta coluna.
Fonte: Gazeta do Povo

