17 de junho de 2026
Adriano de Aquino

A classe artística e o ativismo social

Na quinta feira passada fui entrevistado por dois estudantes que pautaram para seu trabalho acadêmico o tema: ‘A classe artística e ativismo social’.

Não me deterei nas questões sociológicas de praxe em trabalhos desse tipo como arte e sociedade/democratização do acesso à arte e à cultura, o papel do artista na sociedade, etc.

Vou direto à pergunta que me pareceu central ao programa de trabalho deles:

P: – O que o levou a hoje ser um crítico contundente da adesão de grande parte da classe artística ao ativismo da esquerda progressista? Como explica essa atitude depois de décadas de militância, inclusive como membro do primeiro escalão de governo como Secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e ocupar cargos de direção em gestões de viés social democrata?

R:- Do ponto de vista experimental observei duas graves contradições entre discurso e práxis. No discurso, ou melhor no ideário social democrata de então, havia um forte compromisso com a ética. A crítica era uma baliza moral que norteava o uso correto dos recursos públicos com objetivo de que as propostas de campanha fossem realizadas e entregues ao principal destinatário, a sociedade.

Como executivo do programa, tive alguns enfrentamentos com os indicados pelos partidos coligados para cargos de direção nas instituições e fundações ligadas à secretaria.

Se você não é bobo logo percebe que não há coalizão de fato.

Se trata de um jogo de poder, cujo objetivo maior é favorecer lideranças partidárias. A sociedade se torna fundo de cena para debates acalorados voltados para atender interesses particulares e difusos. Coisas da cultura política brasileira, basicamente paternalista.

A outra contradição é de caráter financeiro/destinação dos recursos públicos. Estou me referindo aos primeiros anos do Século XXI.

Hoje as coisas pioraram muito.

Agora há uma evidente e desavergonhada destinação de recursos públicos para coletivos engajados, shows promocionais de caráter efêmero e um desleixo jamais visto com o patrimônio cultural em pedra e cal e acervos artísticos, históricos e documentais valiosos.

Todavia, o que sobressai a olhos vistos é a tendência predominante de ideologizar o meio artístico.

Para isso, se disponibiliza enormes recursos e a cultura se torna apenas uma plataforma de propaganda partidária.

O que antes era uma tendência, hoje se tornou regra dominante.

A coisa tomou tal proporção que a esquerda é mais um produto de mercado. Quem paga leva!

E ganha de bônus consciências baratas dispostas a tudo, inclusive copiar/colar rótulos medíocres para cancelar, difamar e censurar os oponentes.

A esquerda hoje é um produto de mercado tão atrativo que bilionários como George Soros e congêneres brasileiros, herdeiros de grandes fortunas, controladores de empresas de comunicação e pessoas de muitas poses apoiam, investem em incentivos fiscais e intermediam dotações orçamentárias de agências do Estado(dinheiro do povo) para comprar o ativismo de artistas, intelectuais, jornalistas e influenciadores digitais como agentes promocionais do capitalismo progressista.

Eu não tenho capital financeiro para combater essa malta. Então, invisto na liberdade de expressão e na crítica aberta ao mainstream.

Adriano de Aquino

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

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