1 de maio de 2026
Editorial

INSS: negócio de família?

O escândalo das fraudes no INSS, que já roubou bilhões dos aposentados brasileiros, acaba de ganhar um sabor especial: o da família Lula. Primeiro foi o filho, o famoso Lulinha (Fábio Luís Lula da Silva), citado em delações, mensagens e quebra de sigilos como possível beneficiário de mesada de R$ 300 mil mensais vinda do “Careca do INSS”, Antônio Carlos Camilo Antunes, lobista preso por operar o esquema de descontos ilegais em benefícios. Agora é a vez do irmão, o Frei Chico (José Ferreira da Silva), vice-presidente do Sindnapi — sindicato que movimentou mais de R$ 1,2 bilhão em poucos anos e virou alvo direto da Polícia Federal na Operação Sem Desconto.

O escândalo das fraudes no INSS já não é apenas mais um esquema de corrupção. Virou praticamente uma empresa familiar. Primeiro apareceu o filho envolvido, agora o irmão também entra no baile. É impressionante a velocidade com que os parentes vão surgindo no meio da farra bilionária que vem sugando o dinheiro dos aposentados brasileiros.

Enquanto o contribuinte comum rala a vida inteira para garantir uma aposentadoria que mal dá para pagar as contas, um verdadeiro clã parece ter transformado o INSS em fonte inesgotável de descontos irregulares, propinas disfarçadas e vantagens indevidas. O filho já estava na dança. Agora o irmão entra em cena, seja por meio de sindicato, entidade ou qualquer outro arranjo que permita sugar o sistema sem grande esforço.

É o Brasil de sempre: um rouba pouco e vai preso, outro rouba muito e vira gestor. Quando o negócio envolve família de gente graúda, o escândalo ganha aquela proteção especial — a famosa blindagem de parentesco. Relatórios da CGU, operações da PF e quebras de sigilo… tudo anda, mas ninguém cai de verdade. O povo paga a conta e ainda escuta discurso de que “é preciso investigar com serenidade”.

O mais revoltante é a cara de pau. O aposentado que trabalhou 35, 40 anos vendo seu benefício ser corroído por fraudes, enquanto os espertos da vez — filhos, irmãos, primos e agregados, encontram jeitinhos jurídicos, sindicatos e cargos estratégicos para faturar em cima do sofrimento alheio. São bilhões desviados. Bilhões que saem do bolso de quem já vive com pouco para engordar quem nunca precisou suar de verdade.

É a “opção preferencial pela família” levada às últimas consequências burocráticas. Onde deveria haver o rigor da gestão pública e a proteção ao segurado, o que se encontra é o velho e mofado balcão de negócios. O envolvimento de parentes diretos do mandatário em fraudes previdenciárias não é apenas um problema jurídico; é um soco no estômago da narrativa de “justiça social” que serve de sustentáculo ao governo.

A ironia, esse tempero onipresente na crônica brasileira, atinge níveis tóxicos. Enquanto o discurso oficial prega a reconstrução das instituições e a moralidade administrativa, o entorno familiar parece operar em uma frequência paralela, onde o sobrenome funciona como uma chave-mestra para abrir cofres que deveriam estar trancados a sete chaves. E o pior: isso não é acidente. É padrão. Quando um esquema grande explode no INSS, não demora para aparecer o filho, o irmão, o cunhado ou o afilhado. Coincidência? No Brasil de hoje, coincidência é nome que se dá para o que todo mundo já sabe que é fisiologia pura do poder.

O mais cínico é o padrão repetido. Na Lava Jato já falavam que Lulinha era calcanhar de Aquiles. Agora, no governo Lula 3, o nome dele volta a pipocar em inquérito no STF, com suspeitas de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O irmão, por sua vez, nega tudo com a mesma cara de pau de sempre: “não sabia de nada”, “vamos investigar toda a sacanagem”. Enquanto isso, o sindicato que ele dirige é acusado de esconder sua participação para fechar parcerias com o INSS — algo expressamente proibido por lei para parentes de autoridades.

A CPMI investiga, a Polícia Federal faz operação, a imprensa noticia… e o circo continua. O aposentado segue sendo a vaca leiteira do sistema, enquanto a família estendida do poder se reveza.

Se Lula não conseguir isolar esses focos de incêndio familiar com a mesma agilidade com que articula maiorias no Congresso, seu governo corre o risco de ser lembrado não pelas políticas de combate à fome, mas pela fome insaciável de seus consanguíneos. No final das contas, o direito adquirido que parece mais sólido por aqui não é o do aposentado ao seu benefício, mas o da família do poder ao benefício da dúvida — que, convenhamos, já se esgotou há muito tempo. No banquete do Estado, os parentes sempre parecem ter lugar reservado na primeira fila, enquanto o povo, como sempre, fica com a conta e a louça para lavar.

É o jeitinho petista clássico: o povo paga a conta da previdência quebrada, o contribuinte rala até morrer para sustentar o sistema, e uma rede de filhos, irmãos, lobistas e sindicatos amigos transforma o sofrimento do idoso em fonte de renda. Bilhões evaporam em “convênios”, “associações” e “facilidades no governo”. O Careca do INSS vira operador, Lulinha vira “empresário” na Espanha, Frei Chico vira vice-presidente de entidade que movimenta rios de dinheiro. E o discurso oficial continua o mesmo: “é golpe da oposição”, “herdamos o problema”, “a lei é para todos”.

Mentira. A lei nunca foi para todos nesse país. Quando o esquema envolve gente simples, cai cadeia. Quando envolve filho e irmão do presidente, vira “suspeita que precisa ser apurada com serenidade”, quebra de sigilo que demora, CPMI que blinda e liminar na Justiça para tirar postagens das redes. O INSS não é mais instituto de previdência. Virou caixa eletrônico de uma rede bem montada, onde o direito adquirido mais protegido não é o do aposentado.

É nojento. É previsível. E é exatamente por isso que o Brasil continua sendo o que é: um país onde a corrupção não é exceção, é herança de família.

Chega de fingir surpresa. O escândalo do INSS não é só de quadrilhas técnicas. É de gente que transformou o serviço público em herança familiar. E enquanto não houver cadeia de verdade para quem rouba aposentadoria de idoso, o Brasil vai continuar sendo esse espetáculo triste: uns trabalhando até morrer, outros vivendo muito bem às custas do INSS.

O filho já estava. O irmão chegou. Quem será o próximo da fila?

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

0 Comentário

  • Roberto 4 de abril de 2026

    O próximo será o próprio…

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