
Na República das coincidências inquietas, certos episódios parecem se olhar no espelho — ainda que separados pelo tempo, pelo contexto e, sobretudo, pelas conclusões oficiais. O voo de carreira ( e não jatinho) interrompido que levava os ministros André Mendonça e Luiz Fux ganhou, por alguns instantes, ares de déjà vu institucional. Não pelo que foi — um procedimento de segurança que, felizmente, terminou em rotina —, mas pelo que evocou na memória coletiva: o trágico episódio que vitimou Teori Zavascki, no auge de decisões sensíveis.
É curioso observar como o acaso gosta de sobrevoar processos que envolvem cifras com muitos zeros. Se com Teori o destino foi um mergulho definitivo nas águas do Rio, com Mendonça e Fux o susto serve como um lembrete de que, no Brasil, até a sustentação oral pode ser interrompida por uma “pane técnica” no plano superior.
É curioso como o imaginário nacional funciona. Basta um avião não decolar, uma decisão relevante em pauta ou um nome de peso a bordo, e pronto: a engrenagem das suspeitas começa a girar. Não se trata, necessariamente, de acreditar em teorias mirabolantes — mas de reconhecer que, no Brasil, fatos e simbolismos costumam caminhar perigosamente próximos.
Dizem que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas aqui, a física das coincidências obedece a leis próprias — geralmente ditadas pelo Código de Processo Político. O recente susto aéreo envolvendo os ministros André Mendonça e Luiz Fux traz de volta aquele aroma de maresia e querosene que ficou impregnado no ar desde 2017, quando o avião de Teori Zavascki decidiu que o mar de Paraty era um bom lugar para encerrar um capítulo da história.
Naquela época, Teori carregava o peso das homologações da Odebrecht. Hoje, o peso que balança as asas do judiciário parece ter o lastro de um banco. Falar em Banco Master e no caso Vorcaro perto de um hangar tornou-se, aparentemente, um esporte de alto risco.
Dizem que coincidências são só estatísticas mal explicadas, mas no Brasil elas vêm com data marcada e cheiro de conveniência. Teori Zavascki — o relator da Lava Jato que segurava as delações mais quentes, aquelas que poderiam fazer meia Brasília vestir laranja — pegou um jatinho Cessna para Paraty. Resultado? Mergulho no mar, cinco mortos, laudo oficial: mau tempo, piloto desorientado, “nada a declarar”. O país inteiro ergueu a sobrancelha: “Acidente? Tá bom, e o Lula é evangélico desde berço?. A Lava Jato seguiu mancando, mas sem o seu piloto original. O sistema agradeceu o respiro.
Se adicionarmos à equação o pano de fundo de casos rumorosos — como o que envolve o Banco Master, cercado de controvérsias, interesses e desdobramentos ainda em ebulição —, o cenário ganha ainda mais camadas. Não porque haja uma ligação direta entre os episódios, mas porque o ambiente geral é de permanente tensão: decisões judiciais de grande impacto, figuras centrais sob escrutínio e um país habituado a desconfiar até do óbvio.
No fundo, o que se revela não é uma conspiração, mas um estado de espírito. Um país onde até procedimentos de segurança viram metáforas políticas, onde coincidências são elevadas à categoria de enigma e onde a memória recente insiste em dialogar com o presente, mesmo quando a razão recomenda cautela.
Assim, o voo interrompido de Mendonça e Fux talvez diga menos sobre riscos reais e mais sobre o clima que se instalou por aqui: um Brasil em que a realidade precisa disputar espaço com suas próprias interpretações. E onde, entre a pista e a decolagem, o que mais voa não são aviões — são as suspeitas.
De repente: suspeita de bird strike (ave colidindo com a aeronave em voo anterior). Cancelamento preventivo. Inspeção técnica imediata. Ninguém taxiou, ninguém decolou. Mendonça e Fux são remanejados para outro voo e chegam inteiros ao Rio. A LATAM jura de pés juntos que não houve falha mecânica, não houve abort de decolagem, foi só precaução. Coincidência pura.
A internet não comprou. Memes explodiram: “História se repete no STF?”. “Voo interrompido na véspera da delação de Vorcaro ecoa a queda que matou Teori”. “Mendonça e Fux não podem viajar juntos”. E a pergunta que ninguém faz em voz alta, mas todo mundo digita: quem ganha com um bird strike preventivo bem agora? Bem quando a delação do dono do Banco Master ameaça nomear figurões — doleiros, banqueiros amigos, políticos do Centrão, quem sabe quem mais? Bem quando o relator (Mendonça) e o possível contraponto (Fux) estão no mesmo avião, prontos para seguir suas rotinas?
A ironia é de doer o riso. Teori foi num jatinho particular, voando baixo sobre o mar — terreno fértil para “mau tempo” e “erro humano”. Mendonça e Fux pegaram voo comercial lotado, portas trancadas, piloto que age por protocolo. Não caiu nada. Só não subiu. Preventivo. Técnico. Uma ave malcriada de semanas atrás decidiu bater no avião e a LATAM só descobriu na hora H. Perfeito. Nada de crime, senhores. Só segurança em primeiro lugar. E timing impecável.
Teori caiu no mar. Mendonça e Fux nem saíram do chão. Progresso brasileiro? Talvez. Pelo menos agora as falhas são detectadas antes da pista — ou será que o bird strike virou o novo “aviso de cortesia”? O Triângulo das Bermudas do STF continua aberto: quem se aproxima demais de segredos bilionários some — ou quase some. E o mais hilário? Ninguém prova nada. Só coincidências lindas e oportunas.
No caso recente, tudo indica normalidade operacional. Já no episódio envolvendo Teori, investigações concluíram pela ausência de crime. E ainda assim, anos depois, o episódio continua pairando como uma sombra persistente sobre qualquer turbulência institucional — literal ou metafórica. Não porque haja provas de algo além do que foi apurado, mas porque a coincidência entre momento político e evento trágico foi, para muitos, difícil de digerir.
De qualquer forma, cuidado com os voos, ministros. E cuidado com os casos que mexem em fortunas e reputações. Porque no Brasil de 2026, até passarinho pode ser mensageiro. E voa impune.

