16 de abril de 2026
Editorial

CPI do Crime Organizado entra em rota de colisão institucional

Brasília acordou na 3a feira com aquele cheiro característico de pólvora institucional. Em um lance digno dos melhores roteiros de suspense jurídico a CPI do Crime Organizado do Senado decidiu chutar o balde, a toga e a compostura. O alvo é ninguém menos que a “Santíssima Trindade” do STF, composta por Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, devidamente acompanhados pelo Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, para que ninguém ouse dizer que o Ministério Público ficou de fora da festa.

O relator apresentou um relatório de 221 páginas que mergulha no caso Banco Master, escândalo que mistura crime organizado, dinheiro duvidoso, proteção de sigilos e uma rede de favores que cheira a algo bem maior que mera interpretação criativa da lei. O relatório acusa os ministros de atuarem em causas nas quais, por lei, deveriam ser suspeitos. De procederem de modo incompatível com a honra, a dignidade e o decoro do cargo. Em resumo, de transformarem a toga em escudo corporativista.

É histórico. Pela primeira vez uma CPI do Senado teve a coragem de mirar o Olimpo brasiliense. Os três mosqueteiros da toga, que há anos ditam o ritmo do país com decisões monocráticas, liminares criativas e habeas corpus seletivos, agora aparecem no mesmo relatório que investiga o crime organizado. Ironia das boas: quem deveria combater o crime virou personagem central da investigação.

Há, evidentemente, uma coreografia conhecida nesse tipo de movimento. O indiciamento, por si só, não condena, não afasta e, evidentemente, não prende. Mas produz manchetes, inflama redes sociais e alimenta narrativas que dispensam provas robustas — basta a insinuação bem colocada. No tribunal da opinião pública, o rito é mais simples: acusa-se primeiro, pergunta-se depois. Às vezes, nem se pergunta.

Segundo o relatório vazado, Alexandre de Moraes é apontado como o “capo” do esquema. A ele é atribuída a liderança de uma organização criminosa especializada em inquéritos intermináveis e na defesa intransigente da Constituição Federal, práticas consideradas, segundo a CPI, altamente prejudiciais aos negócios dos cidadãos de bem.

Já a dupla Gilmar Mendes e Dias Toffoli foi indiciada por um crime ainda mais nefasto: a “operação de um cartel de habeas corpus”. O relatório aponta que os dois ministros, em conluio, durante madrugadas insones, teriam montado uma indústria de soltura que atrapalha o trabalho sério e dedicado da polícia e do sistema prisional. Eles insistem nessa tese ultrapassada de amplo direito de defesa.

Ao PGR, Paulo Gonet, coube a acusação mais sofisticada: o crime de omissão dolosa com requintes de silêncio ensurdecedor. A CPI alega que Gonet, na qualidade de fiscal da lei, teria assistido a tudo com a placidez de um monge tibetano, permitindo que a “organização criminosa togada” agisse livremente. Sua inação, segundo o relatório, foi a peça-chave que garantiu o sucesso do plano de estabilidade institucional.

Resumindo: Toffoli e Moraes levam a mesma pedrada: julgar quando não deveriam. Gilmar Mendes ganha destaque especial pela manobra de proteção ao barrar quebras de sigilo que poderiam incomodar amigos. E Paulo Gonet? O PGR é chamado de patentemente desidioso — tradução livre: dormiu no ponto enquanto indícios robustos pipocavam embaixo do nariz. Omissão total, segundo o relator. Silêncio institucional que, convenhamos, já virou marca registrada em certos gabinetes.

Gilmar Mendes, claro, já reagiu. Disse que não há base legal para a CPI indiciar ministros do STF. Tradução: “Como ousam questionar quem está acima do bem e do mal?” O ministro ainda sugeriu que investiguem o próprio relator por abuso de autoridade. Clássico. Quando a casa cai, o primeiro instinto é mandar prender o bombeiro.

Enquanto isso, o povo brasileiro assiste a tudo com aquela mistura de espanto e cansaço. Depois de anos vendo o Supremo agir como se fosse um Poder acima dos Poderes, uma CPI — instituição que muitos já consideravam morta — consegue o que o Congresso há tempos não fazia: cutucar o ninho de vespas. Pode não dar em impeachment amanhã. Pode ser engavetado, judicializado ou simplesmente ignorado pela “imprensa séria”. Mas o precedente está posto. Falta ainda a votação no plenário da CPI.

Sejamos francos. Em Brasília, indiciamento de ministro costuma ter a validade de uma promessa de ano novo: faz muito barulho na virada, mas raramente sobrevive à primeira quarta-feira de cinzas. Para a CPI, o movimento garante uma vitória política imediata e combustível infinito para as redes sociais.

Mas tudo isso não passou de um sonho de verão, porque, ao tomar conhecimento do relatório, o governo agiu junto a partidos do Centrão, liberando emendas e, principalmente, cargos em agências reguladoras e, junto com Alcolumbre, trocou dois senadores: deixaram a CPI Sergio Moro (União-PR) e Marcos do Val (Podemos-ES), ambos do Bloco Parlamentar Democracia (MDB, PSDB, Podemos e União Brasil) e favoráveis ao parecer. Em seus lugares, entraram os petistas Beto Faro e Teresa Leitão. Resultado 6×4 pelo arquivamento.

O senador Alessandro Vieira lavou minha alma com seu relatório. Gilmar Mendes rapidinho fez ameaças. O governo votou contra o relatório da CPI. O relatório, mesmo não aprovado, é um bom começo para se começar a pensar que ninguém está acima da lei. Cabe a nós que temos o poder do voto tentarmos usar isso para limpar a área.

Infelizmente, é assim que funciona a nossa Presidência do Congresso. De joelhos para o governo e para o STF.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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