8 de maio de 2026
Editorial

As asas do poder: Moraes e Toffoli

Há personagens na vida pública brasileira que parecem não caminhar — pairam. Não por leveza, mas por uma espécie de imunidade gravitacional que os mantém acima do peso das consequências. No palco institucional, onde deveria vigorar o equilíbrio entre poderes, certas figuras ganham asas. E não são asas metafóricas de liberdade: são estruturas robustas de proteção, influência e conveniência.

Não é metáfora. São fatos. Documentos da ANAC, cruzados pela Folha de S.Paulo, mostram que o casal Moraes (o ministro e sua mulher, a advogada Viviane) voou pelo menos sete vezes em aeronaves da Prime Aviation, empresa ligada a Vorcaro. Toffoli não ficou atrás: pegou carona no mesmo tipo de jatinho para ir a Marília, sua cidade natal, e até para um resort.

Enquanto o povo comum aperta o cinto em voos lotados da Gol ou Latam, paga bagagem extra e come snack murcho, dois guardiões da Constituição brasileira viajavam com conforto VIP cortesia de quem tem negócios que o próprio STF deveria julgar com isenção.

A defesa? A de sempre. “Não era avião do Vorcaro, era de uma empresa de táxi aéreo que ele tinha participação”. “Minha esposa contrata serviços normalmente”. “Nunca voei com o banqueiro pessoalmente”. Tradução livre: “foi só uma carona inocente, gente”. Relaxa? Relaxa nada!

Quando um ministro do STF, que tem poder para mandar prender, censurar, bloquear contas e decidir o destino político do país, aceita voar em jatinho de alguém investigado por fraudes bancárias, o mínimo que se espera é transparência absoluta. Quem pagou? Foi contrato formal? Houve declaração no portal da transparência? Ou foi aquele “favorzinho” que depois vira gratidão na hora de julgar processos relacionados ao Banco Master?

Toffoli já foi relator de investigações envolvendo o próprio banco. Moraes tem a mulher com escritório que tem contrato milionário com o Banco Master. E agora aparecem os voos. O cheiro não é bom. É cheiro de conflito de interesses servido em altitude cruzeiro.

O caso de Vorcaro, orbitando decisões e humores de ministros como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, expõe mais do que um episódio isolado — revela um padrão. Um desenho onde a toga, que deveria simbolizar a neutralidade da Justiça, por vezes se transforma em escudo seletivo. Não para todos, evidentemente. Apenas para os que conseguem voar.

Enquanto isso, Edson Fachin e André Mendonça viajam de avião comercial como cidadãos normais e ninguém faz festa. Os outros dois evitam até o aeroporto de Brasília para não ouvir vaia do povo. Preferem decolar discretamente nas asas alheias. Simbólico, não? E voar, aqui, não é talento — é acesso.

Nesse cenário, as figuras de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli surgem como os pilares de sustentação para esse voo de cruzeiro. Temos o rigor seletivo de Moraes, o Xerife da República, que em sua cruzada por ordem e defesa institucional parece abrir clarões onde a advocacia de Vorcaro se instala com precisão cirúrgica. É um fenômeno curioso observar como o réu que ontem tremia diante do martelo implacável de Alexandre, hoje encontra um porto seguro em petições que parecem carregar o peso de ouro da interlocução privilegiada. Se Moraes é o braço forte que define quem entra e quem sai do jogo político, Vorcaro é o mestre que sabe exatamente como posicionar as peças para que o xeque-mate nunca venha.

O Brasil não aguenta mais essa sensação de que há duas justiças: uma para quem anda de jatinho e outra para quem anda em voo comercial. Uma para quem decide o futuro do país e outra para o contribuinte que banca tudo isso.

A pergunta inevitável é: quem construiu essas asas?

Não se trata de ingenuidade. O sistema sempre teve suas engrenagens internas, seus códigos não escritos e seus pactos silenciosos. Mas há uma diferença entre reconhecer a imperfeição humana das instituições e aceitar a institucionalização do privilégio. Quando ministros passam a atuar como protagonistas políticos — ainda que sob o manto técnico — o risco deixa de ser abstrato. Ele se materializa em decisões que moldam destinos, muitas vezes sem o devido contraditório público.

Alexandre de Moraes tornou-se, para uns, o símbolo da firmeza contra o caos; para outros, a personificação de um poder que já não se constrange em avançar. Dias Toffoli, por sua vez, transita entre o institucional e o político com a habilidade de quem conhece os bastidores como poucos. E Vorcaro surge como peça de um quebra-cabeça maior, onde relações, decisões e conveniências se entrelaçam.

Não é uma questão de direita ou esquerda — é uma questão de assimetria.

Quando a Justiça passa a ser percebida como seletiva, o dano não é apenas jurídico, é civilizatório. A confiança, esse ativo invisível que sustenta a democracia, começa a se esfarelar. E sem confiança, o que resta é um jogo de força, onde vence quem tem mais influência — ou melhores asas.

Se Moraes e Toffoli realmente não têm nada a esconder, que publiquem todos os contratos, notas fiscais, comprovantes de pagamento e quem estava a bordo. Que expliquem tudo, tim-tim por tim-tim. Senão, a impressão que fica é a pior possível: o Supremo não só julga o país como também voa por cima dele — literalmente — nas asas de quem pode pagar a conta.

E o povo, como sempre, fica no chão. Pagando a conta. E assistindo ao espetáculo

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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