6 de março de 2026
Editorial

A Ciência na contramão do descaso

Num país que consegue a proeza de cortar verbas de laboratório com a mesma naturalidade com que aumenta o fundo eleitoral, duas cientistas brasileiras resolveram fazer o impensável: trabalhar e produzir resultados extraordinários, apesar do Estado e não por causa dele.

Cortar verbas de pesquisa nunca aparece como manchete dramática. Vem sempre embalado em linguagem técnica: “contingenciamento”, “revisão orçamentária”, “adequação fiscal”. Soa quase inofensivo. Mas o custo da negligência científica não é contábil — é estrutural.

Diz o senso comum que para colher é preciso plantar. No mundo da ciência de alto nível, essa máxima costuma vir acompanhada de cifras bilionárias, laboratórios de última geração e um suporte estatal inabalável. No Brasil, entretanto, a lógica é outra: colhe-se o extraordinário em solo castigado pelo descaso orçamentário.

Falo de Tatiana Sampaio e Mariangela Hungria. Duas pesquisadoras que simbolizam aquilo que o Brasil tem de melhor: inteligência, rigor técnico e resiliência. E também simbolizam aquilo que o Brasil insiste em sabotar: a própria ciência.

Tatiana Sampaio é docente e pesquisadora no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordena o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular. Há cerca de 30 anos, ela lidera pesquisas sobre a polilaminina, substância produzida em laboratório a partir da laminina, proteína presente no organismo e responsável pela organização celular e crescimento de neurônios, sobretudo no desenvolvimento embrionário. Sua pesquisa devolveu movimentos a pacientes com trauma de medula nas últimas horas.

Mariangela Hungria, referência mundial em microbiologia do solo, transformou a agricultura brasileira ao desenvolver pesquisas sobre fixação biológica de nitrogênio. Em português claro: ajudou a aumentar a produtividade agrícola reduzindo custos e dependência de fertilizantes químicos importados. Resultado? Bilhões economizados, competitividade ampliada e ganhos ambientais evidentes. Enquanto parte da elite política descobre a palavra “sustentabilidade” em conferências internacionais, ela a pratica há décadas no campo.

O que as une é o paradoxo do sucesso: como produzir ciência de impacto global quando as bolsas de estudo são congeladas e a infraestrutura básica depende, muitas vezes, de “malabarismos” administrativos?

Veja o contraste. Pesquisas como as de Mariangela Hungria que ajudaram o Brasil a economizar bilhões ao reduzir a dependência de fertilizantes químicos por meio da fixação biológica de nitrogênio. Isso não é retórica ambiental — é estratégia econômica. É competitividade agrícola sustentada por ciência nacional.

Da mesma forma, investigações em biomateriais e regeneração celular, como as conduzidas por Tatiana Sampaio, apontam para um futuro em que tratamentos médicos avancem, patentes sejam registradas aqui e inovação gere valor agregado. Quando se negligencia esse campo, o país não deixa de precisar dessas tecnologias — apenas passa a comprá-las de fora, pagando mais caro.

Enquanto isso, o Fundo Eleitoral e o Fundo Partidário crescem absurdamente, ano após ano, e as verbas de pesquisa caem em proporção muito maior.

Há ainda um custo simbólico. Ao tratar pesquisa como gasto supérfluo, o país envia uma mensagem clara às novas gerações: produzir conhecimento não é prioridade. E nenhuma nação se desenvolveu sustentavelmente desprezando sua própria inteligência.

É quase um milagre estatístico. O país investe percentualmente menos em pesquisa do que deveria para o tamanho de sua economia. Bolsas de pós-graduação perdem valor real ano após ano. Jovens pesquisadores fazem vaquinha para ir a congressos. Equipamentos demoram meses para manutenção. Ainda assim, a produção científica brasileira segue relevante em várias áreas. Como? Graças a pessoas como elas.

O feito dessas cientistas é um lembrete urgente de que o Brasil tem solução, e ela está sentada em uma bancada de laboratório, olhando pelo microscópio. Resta saber se, em algum momento, quem detém a caneta terá a mesma acuidade visual para enxergar o óbvio: sem investimento, o futuro é um campo que não germina.

Enquanto governos — de diferentes matizes ideológicos — disputam a paternidade de discursos sobre inovação, quem realmente sustenta a ciência nacional são pesquisadores que aprendem desde cedo a fazer muito com quase nada. A retórica oficial fala em “economia do conhecimento”. O orçamento, porém, fala em contingenciamento.

E, no entanto, seguimos tratando ciência como despesa, não como investimento. Cortes são anunciados com frieza técnica. O impacto real — cérebros desestimulados, talentos migrando para o exterior, projetos interrompidos — raramente vira manchete.

Não sejamos ingênuos: a ciência não se faz apenas com “amor à pátria”. Ela exige reagentes, sequenciadores, energia elétrica e, fundamentalmente, continuidade. Quando um governo trata o investimento em pesquisa como gasto supérfluo, ele não está apenas cortando números no papel; está interrompendo décadas de linhagens de pensamento e expulsando nossos melhores cérebros para o exterior.

A parte mais trágica do “custo” é o desperdício de potencial humano. A negligência não afeta apenas máquinas e reagentes; ela esmaga sonhos e carreiras. Pesquisadores altamente qualificados, formados com dinheiro público, veem-se sem perspectivas de carreira ou sustento digno no Brasil. O resultado é inevitável: a migração maciça para países que valorizam a ciência. O Brasil gasta bilhões para educar suas melhores mentes e, em seguida, as entrega “de bandeja” para impulsionar a inovação em Berlim, Boston ou Xangai. A erosão do capital humano é um custo quase irreparável.

O custo da negligência é um preço que o Brasil já está pagando com juros. Não é apenas uma questão de números em uma planilha orçamentária; é sobre quem nós queremos ser como nação. A charge, que ilustra o editorial, nos força a olhar para a contradição entre o imenso potencial intelectual do país e a miopia de suas elites políticas. A reversão dessa negligência não é um gasto; é o investimento mais rentável e estratégico que o Brasil pode fazer. Sem ele, a pedra sobre a qual estamos continuará a rachar até que não reste mais nada onde os cientistas possam pisar.

O custo da negligência não aparece inteiro no orçamento anual. Ele se revela na dependência tecnológica, na perda de protagonismo internacional, na fuga de cérebros e na incapacidade de transformar potencial em prosperidade.

Ignorar a ciência pode até equilibrar planilhas no curto prazo. Mas desequilibra o futuro.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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