”Os gansos e o guaranazinho”


Se voltar bastante no tempo e quiser me lembrar de vizinhos que tive, um deles era especial: um sujeito gentil, educado, que tinha meia dúzia de gansos soltos no jardim que faziam uma tremenda zoeira quando achavam que algo não estava de acordo com a expectativa deles.
Nunca descobri o porquê, dado que seu dono levantava cedo e lhes dava de comer num horário perfeitamente aceitável – ou assim me parecia – embora eu deva confessar que conheço muito pouco sobre gansos…
Esse vizinho de hábitos sui generis, tinha um outr  que eu diria que era um vício: assobiar do minuto em que levantava ao minuto em que se recolhia…
Nessa época, meu jardineiro, o “senhor Edgar” – que eu, por brincadeira, passei a chamar de Ed”gardener” (gardener = jardineiro, em inglês) uma figura fantástica que, de vez em quando, aparecia um tanto “alegrinho” para “fazer o jardim”. E eu perguntava:
“Seu Edgar, o senhor andou bebendo?”
Ao que ele, mais que depressa me respondia:
“Não dona Súvia, só tomei uns guaranazinhos”…
Algumas vezes que tínhamos combinado, e ele não aparecia, lá ia eu para o bar pegar o senhor “Edgardener” pelo braço e lhe dava um pito:
“Não é possível seu Edgar, bebendo de novo?”
Ao que ele, impreterivelmente me dizia:
“Só uns guaranazinhos, dona Súvia.” E lá íamos nós dois num papo em que ele tentava me convencer a respeito dos guaranazinhos.
O senhor Edgardener sabia de tudo por aquelas bandas: o que os vizinhos faziam, quem tinha filho que estudava – essa era uma qualidade que ele apreciava sobremaneira porque tinha uma filha que ele queria que fosse “estudada e que tivesse uma faculdade”!
Só sei que o grande defeito do “assobiador” era a ausência de repertório – porque nunca consegui identificar a música que ele estava assobiando. Às vezes, me parecia que fosse o “Bigorrilho”, às vezes, a “Marselhesa” – essa me enganava por pouco tempo; eu logo descobria que era alguma outra – mas, todas impossíveis de acompanhar!
Essa figura maravilhosa que eu volta e meia ia buscar no bar, isso depois de muito esperar que ele viesse “dar um jeito”, uma “guaribada” no jardim, uma vez comentou comigo:
“Dona Suvia, a senhora sabe que o assobiador é casado faz um tempão com a mulher dele?”
“Nossa seu Edgar, não dá para acreditar!”
“Dá sim, dona Súvia”, e ele com ar maroto: “a esposa dele é surda!” E desatou a rir, e eu também – e pude entender perfeitamente porque nem os gansos nem os assobios foram motivo de separação!
Algum tempo depois eu viajei e seu “Edgardner” ficou cuidando de meus dois cachorros, “o Dobi e o Dito” que eram, na verdade, o Tobi e o Kiko. Um dia ele viajou para a sua terra lá no norte e eu me mudei dali.
Fui morar bem perto de onde eu estava e logo fui em busca do senhor Edgardner: fiquei sabendo que ele tinha morrido “de ataque” – mas tinha conseguido ver sua filha formada…
Algum tempo mais tarde, sua esposa esteve em minha casa,  levando uma muda de quaresmeira que “seu Edgardner” tinha dito que era para mim: “Ele gostava muito da senhora” me disse ela…
E eu dele. Uma pessoa maravilhosa!

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