O jornal nosso de cada dia


Em minha casa lembro que todos liam jornal, inclusive minha avó que, por ser surda, nunca conseguiu falar bem o português – ela o fazia com um sotaque carregado e muito engraçado – mas lia e entendia absolutamente tudo, ainda que fosse de origem russa. Ela lia a Folha de São Paulo de cabo a rabo e quando o assunto mexia com ela, escrevia extensas cartas para meu pai e meu tio, que sabiam que teriam que discutir os posicionamentos dela. Ela ainda se sentia uma revolucionária –de araque eu diria, porque à época, já nada justificava um posicionamento “de esquerda” por parte dessa minha família que se tornou capitalista, embora todos tenham começado do nada e galgaram bravamente os degraus para chegar até lá…
Comecei falando disso porque o jornal lido em minha casa era a Folha de São Paulo, tido como mais “esquerdizante” nos idos de 60, do que o Estado de São Paulo, Estadão para os íntimos. E eu, quando fui morar sozinha, achei que também devesse assinar e ler um jornal; escolhi outro, que não esses dois baluartes informativos: o Jornal da Tarde, de certa forma, um Estadão resumido, embora tivesse, durante sua história, articulistas maravilhosos que transformavam sua leitura legitimamente um prazer, dado que era incrivelmente mais interessante e “personalista”!
Infelizmente a vida do Jornal da Tarde foi curta e, como protesto quando deixou de ser publicado, nunca mais assinei outro, nem mesmo seu “pai”, cujo marketing sempre me ligou, evocando minha fidelidade ao Jornal da Tarde “Vamos, dê uma chance de convencermos a senhora de que vale a pena”… Mas, exatamente por esse relacionamento digamos, tão íntimo com o finado de saudosíssima memória, eu achava que não daria certo…
Entretanto, há cerca de uns três meses, finalmente o telemarketing do Estadão acabou me oferecendo algo que me tentou: assinar e ter no meu computador o Estadão digital e, nos finais de semana, receber o Estadão em papel.
De alguma forma, a sensação de ter em mãos um jornal “físico” é… especial! Minha infância e adolescência tiveram o jornal como pano de fundo e, se eu aos 9, 10 anos estava interessada nas tiras dos quadrinhos, aquelas muito antigas de verdade, como Os sobrinhos do Capitão, Pinduca, Maria Cebola no final de semana o caderno infantil, mais tarde passei a me interessar também pelas palavras cruzadas e o “vício” foi num crescendo: o caderno de cultura, “esportes de elite” como tênis…
E, no caderno Aliás, Cultura do Estadão, há coisa de umas três semanas, saiu um quadrinho da “dupla travessa, Max e Moritz, rebatizados por Guilherme de Almeida como Juca e Chico, ganharam popularidade no Brasil há um século”. Imaginar que esses dois já fizeram 100 anos aqui, no Brasil – criados que foram por Wilhelm Busch, escritor e caricaturista alemão que morreu em 1908 – acaba por me tornar… anciã também!
Verdade é que estou curtindo muito o “jornal em papel” que me trouxe de volta minha infância e adolescência, já que o Jornal da Tarde era o depositário de todas as minhas reclamações – que à época ainda não eram atingidas pelo Código do Consumidor – que sempre me deu guarida!
Vejo que tanta coisa desaparece sem deixar vestígios das quais, muitas vezes, nem nos damos conta, mas, se posso opinar, especificamente os jornais não merecem estar “de pires na mão” mendigando uma assinatura para não desaparecer também!…

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