13 de junho de 2024
Sylvia Belinky

Politicamente correto

Não deixa de ser muito interessante notar que estamos num momento geral de indefinições e incertezas; mas, ao mesmo tempo, de exigências extremas em relação às pessoas. Explico: temos que ser felizes, gentis, simpáticos e acessíveis. Ao mesmo tempo, temos de ser bem resolvidos e assertivos, passando, dessa forma, a melhor impressão possível.

Para facilitar nossa vida, entramos no Facebook e temos um sem número de testes que podemos fazer, que darão um diagnóstico com relação a quem somos, qual nossa possibilidade de fazer amigos, que nível de conhecimentos temos, nossa acuidade visual, se vemos o essencial e o quanto isso é suficiente para que nos tenhamos em alta conta – é claro que os outros, necessariamente deverão nos achar o máximo, depois de tão bem treinados!

E aí, descobrimos que temos que ser éticos, generosos, politicamente corretos… pois é: que sufoco! Esta parte é a mais difícil, uma vez que, se você for minimamente honesto, jamais será politicamente correto!

O negro não é negro, a criança não é mal-educada, mas tem DDA, o sujeito que se dirige a você de forma desabrida: “E aí, tia?! Qual é? Vai sair ou vai ficar embaçando?” Não é grosso, a velhice não é um saco, mas foi transformada na “melhor idade” – exatamente quando se tem menos saúde, menos dinheiro e menos possibilidades.

A USP – e não creio que seja apenas ela – instituiu um “detector de cor de pele” para determinar quem de fato pode usufruir das vagas para PPI (pretos, pardos e indígenas).

O interessante é que, ao que parece, esse detector é tão perfeito que faz sua avaliação à distância, on line, mesmo! É sabido que ele determinou que fossem barrados dois estudantes – que eu imagino fossem legítimos arianos disfarçados – um candidato na Faculdade de Medicina e um na de Direito!

Agora, pensando melhor, não foi um detector, mas uma “junta especializada”, composta de pessoas que determinaram que eles não eram “suficientemente” negros nem pobres (imagino eu).

Desculpe, mas acho que não entendi direito. Como é que é que isso funciona mesmo?

Eu estava em um grupo de filmes e séries da Netflix e vejo que uma pessoa destacada como super colaboradora e como administradora do grupo declarando, num cartaz cor de rosa choque, que o filme “O mundo depois de nós” era um completo “abacaxi”.

Estamos abarrotados desse tipo de “influencer” que não sabe escrever o “O” com a bunda, em bom português, que vaticina que algo é ruim, em especial se for para pensar – para quem não viu, não darei “spoiler”, mas trata-se de um filme que não é hermético nem difícil de entender; a única dificuldade que apresenta é de digestão.

Foi produzido pelo casal Michelle e Barrack Obama que, se não por qualquer outro motivo, não fazem o gênero “Elon Musk” – que gasta seus milhões em viagens de foguetes – sem que nenhum outro comentário se faça necessário.

Como pessoas que pontificam dessa maneira pululam, evito entrar em confronto, mas desta vez não resisti, especialmente por se tratar de um filme que me vêm à memória sempre que penso nas situações inteligentes que ele coloca o tempo todo.

Fiz um comentário com ela no sentido de o filme mostrar o preconceito às avessas – algo raro e bem mais produtivo do que apenas propagandas com pessoas de pele escura, do meu ponto de vista, ao que ela me responde: “Mas ninguém gostou… pode ver aí, nas opiniões…”

É interessante verificar que a tudo nos acostumamos – só leva um pouco mais de tempo se for algo ruim.

E de fato as opiniões favoráveis eram quase nulas!

No mundo de hoje, em que absolutamente nada é constante a não ser as mudanças, tentamos de todas as formas nos iludir ou deixar que terceiros nos iludam, pensem por nós.

Acabo de descobrir o porquê de elegermos sempre os mesmos cafajestes!

Sylvia Marcia Belinky

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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