14 de agosto de 2022
Sylvia Belinky

O assobiador


Meu vizinho assobia. É. É isso: assobia e muito. E mal!
E o que é pior: assobia músicas não identificáveis que por vezes são parecidas com algo conhecido e que, na realidade, não são.
Assim, quero acompanhar cantando ou até mesmo assobiando também e, quando penso ter identificado certos acordes, sobrevém a frustração: não era “La Cumparcita”, ou “Luar do Sertão”, ou “O ébrio”…
Na verdade, estou falando do repertório possível do pai, já que o filho também assobia – herança direta do pai, em quantidade e…qualidade! Ele também assobia músicas não identificáveis, evidentemente diferentes das paternas: ele gosta de um gênero de música cacofônico, daquele tipo que sai de um piano quando uma criança é apresentada a ele pela primeira vez!
Eu mesma não saberia informar a respeito do repertório do filho uma vez que, já que aquilo que vulgarmente é assobiado, como por exemplo, músicas de Roberto Carlos, Milton Nascimento, aparentemente não entram em suas cogitações musicais.
Os dois assobiam sempre, todos os dias e em horários alternados: o pai começa às 6 horas da manhã impreterivelmente e o filho encerra, por vezes, às duas da madrugada.
Sempre sei quando viajam e fico me perguntando para onde teriam ido e quando deverão voltar…
É estranho como nos acostumamos até mesmo com as coisas de que não gostamos…  Sinto-os como se fossem amigos: preocupo-me com eles se deixo de ouvir seus assobios e até, de certa forma, quero saber de suas vidas.
Na verdade, sei de suas vidas mais do que eles poderiam imaginar e isto sem que eu jamais tenha trocado com eles mais do que um bom dia ou boa tarde cordial.
Tudo porque eu gostaria de acompanhá-los quando assobiam, cantando alguma música que eu conheça.
Acho que, qualquer hora dessas, quando começarem os acorde do que poderia ser, vamos supor, “A banda”, não darei tempo para que não seja: atacarei, cantando a plenos pulmões, convencendo-os de que era essa música que eles assobiavam!
Em pouco tempo, estaremos tão íntimos e afinados que dispensaremos até mesmo o playback no karaokê em que estivermos nos apresentando!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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