13 de junho de 2024
Colunistas Ligia Cruz

A última do Dirceu

Algo me diz que já há um processo de desgaste de Lula crescendo dentro do PT.

Quando um sujeito como Zé Dirceu, que dispensa apresentações, classifica este governo Lula como de “centro direita”, a movimentação das peças está acelerada na cúpula do poder.

A sucessão de torpezas e erros de avaliação desta gestão revela que os ventos estão levando as tendências para o conservadorismo, porque é nesse cenário que as mudanças têm acontecido.

Por mais que a fala de Dirceu seja a mentira mais deslavada, é lícita a tentativa dele de querer “colar” no movimento popular que tem arrastado o povo para as ruas. Uma ponta de inveja bastante robusta que tem acometido até os mais radicais comunistas.

Ainda que os militantes fiquem bravos com a classificação do estrategista formado no ninho castrista, ele ainda leva nas pontas dos dedos o timão que navega o enorme barco petista. Só que a embarcação está fazendo água e o convés está cheio.

O fato é que para os caciques do partido, não é nem um pouco estranho este aceno aos divergentes. Foi o próprio PT que começou as coligações com figuras de partidos moderados e até com a direita raiz do passado, como Paulo Maluf, por exemplo.

No Mensalão e no Petrolão as alianças com os partidos de centro foram ainda mais auspiciosas, demonstrando que não há puritanismo, nem fé cega quando o assunto é dinheiro e poder. Basta cada um fazer o seu preço e, de repente, está todo mundo no mesmo bolso e dane-se a decência.

A festa da corrupção é tão recente e presente que os partidos se transformaram em impérios econômicos. Tornar-se político hoje substituiu a antiga escolha por profissões de prestígio. Hoje, mais vale ser vereador ou deputado do que estudar direito ou medicina.

A política é o espaço onde se exercem influências e se enriquece mais rápido. E essa costura o PT sabe fazer. Mas não evoluiu, fica nisso.

O partido que antes foi uma bancada ruidosa no Congresso, hoje se vale de poucos na linha de frente. O patético e solitário desempenho de Lindbergh Farias fazendo comício em feira de periferia, sem plateia, é a prova mais cabal de que a coisa não anda bem. Nem ele, nem o PT.

Perder o status de “partido do povo”, incomoda. Cada vez que Lula passa do ponto em seu discurso tosco, e isso tem sido constante, faz mais estragos do que o último furacão de Dubai. Arrasa toda tentativa de trazer mais para perto os militantes mais encarniçados, sob a batuta da presidente do partido, Gleisy Hoffman – que também está sem tanto acesso ao chefe depois que a consorte tomou posse.

Vendo por outro ângulo, uma arremetida à direita facilitaria o alinhavo nos bastidores para cooptar mais adeptos do centrão que ainda não se curvaram, mas que estão por um triz.

Então, “colar” a identidade desta gestão no movimento que arrasta multidões em torno de pautas que nada têm a ver com esquerdismo radical é só uma manobra manjada, para ajustar números sem garantia nenhuma de sucesso. Um delírio.

Se o PT ganhou as últimas eleições presidenciais com 50,83% dos votos válidos – uma vitória apertada –, uma pitada conservadora, em tese, permitiria abocanhar um naco maior. Esse é o cálculo de Dirceu. Só que não.

Ser conservador e de direita está anos luz do que o PT pratica e defende. A começar pelo voto que jamais deveria ser obrigatório. Item que saiu da lista quando o partido aprendeu a se “garantir” quando tomou o poder.

Porém, o que abre um abismo conceitual profundo entre as duas ideologias é a defesa da esquerda a regimes de exceção, ditaduras facínoras, o cerceamento à liberdade de expressão, as prisões arbitrárias, o silêncio no desrespeito à Constituição, a tortura e perseguição a inocentes e jornalistas. Sem falar no gasto imoral do dinheiro público com frivolidades, enquanto a cesta básica da população fica cada vez mais restrita. É tão aviltante que dói na alma do cidadão. Só para citar alguns pontos de divergências entre o PT e a direita.

Não dá para confundir conceito e essência. Contudo, o narcisista Zé Dirceu não está nem aí para isso. Ele é capaz de tudo para conquistar suas metas e a militância que se acostume com isso. E viva o balcão de negócios petista.

O ponto de inflexão nessa história toda é o cidadão comum, que se identifica com valores conservadores. A direita está aprendendo a se articular e esse é um movimento sem volta. Nem o mago das tramoias será capaz de mudar isso. Dá até para imaginar um bate-boca acalorado entre Lula e Dirceu por sua definição infeliz.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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