9 de agosto de 2022
Sylvia Belinky

Espírito de Natal fora de hora…


Em 12 de dezembro de 1997 escrevi esta crônica para que fosse lida na Rádio Eldorado em um programa chamado “Crônica da Cidade.
Como tradutora que sou, volta e meia preciso de algum livro, para pesquisa, ou de algum dicionário especializado.
Desta vez, foi um dicionário de gíria… em francês.
Há tempos, ninguém me pedia nada do francês – para tristeza de muitos, especialmente dos próprios franceses, esta língua, outrora tão importante, está caindo em desuso (o que não deixa de parecer castigo divino para tanta empáfia e desprezo com que esse povo – especialmente os parisienses – brindava aqueles que visitavam seu país e não conheciam sua língua…).
Voltando ao dicionário, porém, tratei de ir até a Livraria Francesa que, pelo que eu me lembrava, tinha sua matriz na Rua Barão de Itapetininga – endereço, aliás, bem de acordo com os tempos passados…
Ali, por volta das 9 horas da manhã, encontro uma gentilíssima senhora, francesa, que me indicou a filial da livraria, no Itaim: merci bien, madame, bonne journée!
Feliz da vida, por não ser obrigada a ir ao centro da cidade, chego à livraria. Um dos atendentes, uma moça, me deixa à vontade. Dou uma olhada e decido levar também um dicionário enciclopédico novo, por um preço excepcional. Ao pedir-lhe o dicionário de gíria ela, para meu horror, disse que eles não tinham mais.
– Tem sim, disse eu brincando, mas muito preocupada. Você precisa encontrar um, deve ter um escondido… meu trabalho é grande!…
Após uma busca também na matriz, ela se oferece para encomendar um para mim.
– Impossível, respondo eu desesperada. O trabalho é urgente; meu Deus, o que é que eu vou fazer?
A moça pensa um pouquinho, vira-se para mim e diz: – Sabe o quê? Eu tenho um em casa que não estou usando e posso lhe emprestar! Eu moro aqui pertinho; espere um minuto que eu já volto.
PASMEM: a moça pegou seu carro, saiu e, em quinze minutos ou menos, estava de volta com a preciosidade.
Fiquei absolutamente embasbacada diante de tanto desprendimento, gentileza e genuína solidariedade humana. Além de embasbacada, comovida, agradecida e reconciliada com o gênero humano…
Moramos nesta megalópole indiferente e, quando não, francamente agressiva, onde um ato como esse tem que ser louvado e apregoado aos quatro ventos: obrigada, Cláudia Sampaio, por ter e demonstrar aquilo que eu identifiquei como sendo o legítimo espírito do Natal, ou seja, aquele que não tem data para acontecer, está presente e ativo o tempo todo, disponível para todo mundo, não só para os amigos e entes queridos.
Feliz Natal para todos, joyeux Noël – que lindo presente recebi de você, Cláudia!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.