De biju e de flores


Fui chamada a um bairro bem distante para dar uma ajuda, uma vez que sou instrutora na Oficina de Pais do CNJ, trabalho voluntário que, ao que parece, poderá de fato vir a ser remunerado – promessa feita em 2010.
Aliás, estranho que possa parecer, o CNJ, mesmo não nos remunerando, nos obriga a um sem número de cursos e de certificados para prestarmos um serviço voluntário…
Na ida, chegar até lá me passou despercebido: fomos de carro, conversando, sem que eu prestasse atenção no caminho nem na distância.
Voltando de ônibus, à noite, observo a cidade que eu tanto amo e fico imensamente triste: de cosmopolita e iluminada – estamos passando por bairros assim chamados “nobres” – nessa sexta-feira, vejo tudo sujo, pichado, apagado. Mesmo a frequência dos barzinhos, de gente que deveria estar feliz por estar empregada, parece fulera, sem brilho, mal ajambrada…
Ao redor dos carros parados no semáforo, um desfile de caras “desesperançadas” – é assim que o governo federal as classifica por terem desistido de procurar trabalho… Mas, olha elas aí, vendendo alguma coisa: balas, biju…
Adoro biju e sinto um misto de alegria por ver o biju e ter a lembrança de que “meu” vendedor de biju de há muito tempo, de longe divisava meu carro e vinha correndo… O triste é que ele, mesmo vendendo nas imediações da USP, não conseguiu mudar o destino do filho, que hoje também é um senhor que vende biju…
Tem também os que vendem flores… Noto que são aqueles com mais idade: desesperançados eles também, mas que, aparentemente, ainda acreditam no efeito encantador de um ramalhete…
Outros, em geral adolescentes, com panos sujos, um rodinho e uma garrafa d’água, se dispõem a limpar os para-brisas empoeirados em troca de uma moeda… E, claro, tem os que simplesmente estendem a mão em concha.
Tomo um susto: numa esquina, onde o movimento é grande durante o dia, havia um supermercado que, sem ser de uma rede, fechou: caramba, um supermercado!
Paredes enfeitadas com grafites claramente pagos, coloridos e de bom gosto e que desaparecem emporcalhados sob os garranchos ilegíveis de autores desconhecidos, sempre pretos como se, tendo consciência de que jamais produzirão algo tão bonito a ponto de serem pagos para isso, apagam o brilho de outros…
Chama minha atenção o número enorme de pessoas que saem de seus trabalhos e fazem das bicicletas ou dos patinetes seu meio de transporte, deslizando rápidos e que, parados no semáforo, digitam freneticamente em seus celulares, vez por outra olhando o semáforo e alguma movimentação suspeita…
Dentro do ônibus, caras tristes de gente “na moda”, com roupas todas furadas e de expressão indiferente, digitando nos celulares ou com fones de ouvido que cobrem as orelhas, tentando manter o nirvana de suas músicas sertanejas ou funk, tentando manter distância da feiura e do barulho à sua volta…
Estamos todos distanciados do próximo, uma tela ocupa o lugar de alguém que esteja ao lado, tentando entabular uma conversa…

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