Carnaval e as fantasias


Um bom momento para pensar na vida e observar as pessoas é quando alguém, que pensamos conhecer muito bem, tem uma atitude ou faz algo totalmente inesperado – ao menos para nós.
Só então, nos damos conta do quão pouco conhecemos os outros, ainda que muito próximos e surpresa das surpresas: é possível nos surpreender conosco mesmo, para o bem e… para o mal!
Muitas vezes, movidos pela raiva, pelo despeito, pela inveja – sentimentos tão nossos como os bons – deixamos que a opção burra tome a frente e, para furar um olho do outro, furamos os nossos dois.
Internamente, todos nós travamos um duelo permanente entre o que gostaríamos de fazer (e reprimimos)  e o que fazemos de fato porque “pega bem”. Um dos fantásticos personagens de Chico Anysio tinha como bordão: “Morro teso, mas não perco a pose!” que ilustra bem essa postura.
Até aqui tratei de características que, ao longo da minha vida, me pareceram comuns a todos com quem escolhi me relacionar ou que a isso fui obrigada pelas circunstâncias: estar na mesma família, estudar na mesma escola, etc.
Hoje, há um número prodigioso de pessoas que nega o sol ao meio-dia ou que martela tanto uma mentira até que ela passe a ser aceita como “verdade” – ainda que sem qualquer comprovação. Minhas expectativas eram falsas ou é falso tudo aquilo em que acredito?
Há palcos perfeitos para essas farsas, bem como homens públicos cuja fala é ouvida e decantada: são atores que fazem escola todos os dias e no mundo todo.
E o que será que essas criaturas têm que falta em nós? A audácia de assumir uma persona cuja característica número um é a falsidade tanto ideológica como de propósitos…
A primeira vez que vi um político brilhante na TV, em um programa de entrevistas, comentei que era uma pena que tal criatura, com a sagacidade e verve de que era dono, “fosse do mal” e claramente movido por interesses escusos.
O ser humano que possui essas qualidades, para satisfazer a seu próprio ego, no mais das vezes, vai se dedicar à política ou à pregação e o resultado disso será, quase sempre, deletério para quem o seguir.
E temos sempre a impressão de que essas criaturas brotaram por geração espontânea no meio de nós. Não é verdade, elas brotaram e não foram arrancadas como ervas daninhas, mas admiradas por terem surgido sem que fossem plantadas.
De fato, não foram plantadas, mas foram regadas e ungidas por nossa cega admiração que acabou por convencê-las de que são figuras ímpares, indispensáveis. Ímpares o são, de fato: indispensáveis? Bem ao contrário…
Aproveitando que estamos no carnaval e que, nele, vestir a fantasia e se exibir é o normal, deixo aos que leram este desabafo os espaços em branco a serem preenchidos com quem lhes aprouver…
Lembro apenas que gente do mal permanece fantasiada – em especial fora do carnaval.   Citando Chico Anysio mais uma vez:
“No Brasil de hoje, os cidadãos têm medo do futuro; os políticos, medo do passado.”

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