30 de janeiro de 2026
Sylvia Belinky

Are you there?

Acabo de ouvir, a respeito de um novo aplicativo, que se chama “Você está vivo?”, comentado por um sujeito, cuja inteligência eu admiro, Michel Alcoforado.

Trata-se de algo bastante recente, que está tendo seus dias de glória na China e outros países asiáticos. Você compra o aplicativo, que tentará entrar em contato com você, querendo saber se está vivo ou morto. O sucesso está acontecendo entre as pessoas que tanto elegeram as telas em detrimento do contato pessoal que vão precisar dele quando “baterem com as dez” ou “forem dessa para a melhor”, como se dizia.

Michel comentava que, no edifício onde mora, ele nada sabe dos hábitos dos vizinhos e vice-versa, pois com o advento das habitações alugáveis para os finais de semana, a tendência passou a ser a mudança. E eu acrescentaria: hábitos a serem observados de parte a parte, o que, antigamente, nos preservava da sensação, no mínimo incômoda, de sermos encontrados mortos em nossa casa, sem que ninguém tivesse dado pela nossa falta.

Pensei que talvez haja alguma esperança para os “influencers”; afinal, tendo seguidores, alguém notará que está sem seus habituais “pitacos” e não saberá decidir em relação a que perfume usar, que batom, que jornal ler ou em quem votar. Evidentemente, isso não serve de garantia, mas ajuda, né? (Socorro!!!)

Sempre penso no que aconteceu a Gene Hackman e sua mulher, encontrados mortos juntamente com o cachorro depois de uma semana, sem que ninguém desse pela falta deles, o que, cá pra nós, a julgar pela guerra que a imprensa noticiou sobre os bens deixados por ele, (que deserdou os filhos), não deveriam ser muito amigáveis – ele ou os filhos, sabe-se lá…

Achei interessante que Michel se tenha referido a relações que já não são mais preservadas como antigamente, tais como, pai, mãe, filhos. Trata-se, sem dúvida, de um bom exemplo – e que me veio à cabeça com a novidade!

A rapidez com que os hábitos estão mudando não deixa de me assombrar e a sensação que tenho é que, a cada dia que passa, estamos mais e mais à mercê do imponderável – senão isso, estamos nos sentindo mais e mais sozinhos…

É possível que essa sensação não estivesse presente à época porque então existiam expectativas nas relações assim tão próximas e, a ideia de não corresponder a elas, ensejava conselhos e digressões – não necessariamente úteis, mas que denotavam alguma preocupação por parte dos circunstantes.

Mesmo que essa preocupação não funcionasse, digamos que trazia… um certo conforto, diante do que vivemos hoje!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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