3 de julho de 2022
Colunistas Sylvia Belinky

Coleções: caixinhas

Muitas vezes, paro para pensar em como passávamos nosso tempo, quando jovens e não dispúnhamos de tela alguma à exceção da televisão – que não era algo que nos prendesse a atenção durante o dia, pelo menos.

Colecionei muitas coisas ao longo da adolescência: caixinhas de fósforos (era uma coleção invejável, recheada de caixinhas vindas do exterior, diferentes, originais, com palitos desenhados, formando figuras – tive até algumas com palitos de cera, não muito práticos, mas originais, que era o que mais me encantava).

O irmão de meu pai viajava muito a trabalho e sempre se lembrava de me trazer as caixinhas diferentes que encontrava nos locais para onde ia: África, Israel, Escandinávia, Estados Unidos, etc.

Muitos amigos colecionavam flâmulas, aviões e barcos de montar, com um sem número de peças, bolinhas de gude…

Eu mesma pretendo discorrer em outra ocasião sobre meus 1.100 compactos e 1.900 LPs dos quais me desfiz quando de minha mudança para esta casa menor…

Mais tarde, quando já era “mocinha”, por volta dos dezesseis anos, comecei a colecionar caixinhas para se colocar comprimidos a serem tomados diariamente e outras, que eram vendidas em quiosques como souvenirs de viagens.

Nessa época, todos os amigos, parentes e, em especial uma tia, passaram a me trazer caixinhas de presente.

Ainda hoje, tenho uma belíssima vitrine trancada, com cerca de trezentas, que só abro uma vez por ano para tirar o pouco pó que se acumula. Vez por outra, cismo de limpar as de prata, que escurecem, mas, são tantas, tão pequenas e tão trabalhadas, que, para evitar de manusear de modo inadequado, acabo desistindo no meio do caminho…

Recentemente, mudei de uma casa muito grande para uma bem pequena, com um terço do tamanho e quase vendi a vitrine francesa com as caixinhas dentro.

Meu marido foi contrário à venda, ainda que eu já não acrescente mais peças à coleção:

“Não faça isso. É algo que acompanha você há muito tempo, que tem uma história, a sua história…”

Sou tão grata a ele por não me ter deixado vendê-la! Tem mesmo tantas histórias ali, lembranças sempre boas de um presente no passado… E essa é uma frase interessante: um presente ganho no passado, que hoje – o futuro, naquela época – é lembrado com carinho!

Só lamento não ter colocado, em cada uma delas, o nome de quem me deu e quando, mas, uma, das mais significativas, ganhei de um médico amigo da família que, quando soube que eu tinha essa vitrine, trouxe, cuidadosamente embrulhada em papel de seda, uma de prata toda trabalhada.

E ele me disse:

“Ganhei há mais de 70 anos, eu tinha 7 anos na época e estava indo para o internato. Minha mãe me deu e dentro dela estavam agulhas, linhas e botões, para que eu pudesse pregá-los caso caíssem. Eu a mantive guardada comigo todo esse tempo, mas acho que nessa sua vitrine ela vai ficar muito valorizada…”

Sem dúvida, um presente importante, especialíssimo…

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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