4 de julho de 2022
Colunistas Sylvia Belinky

A cadeira de balanço

É. É exatamente isso: minha cadeira quebrou e, exatamente por ser tão antiga e de estimação, item de uso pessoal, eu precisava de alguém de confiança para consertá-la.

Foto: Sylvia M. Belinky

Sim, uma cadeira de uso pessoal, que me acompanhou em toda a minha infância e, tão logo a família percebeu que eu era perdidamente apaixonada por ela – onde quer que ela estivesse, lá estava eu, tentando me balançar ou procurando uma alma caridosa que se dispusesse a me empurrar – nessa época, eu nem sequer alcançava o chão com os pés quando fazia isso – me presentearam com ela.

Estofada de veludo verde-claro (uma heresia, dado que se tratava de uma cadeira de balanço Thonet)!

Para os não iniciados, uma cadeira toda torneada, de uma madeira especial e que, quando vendida na loja, vinha com palhinha indiana no encosto e no assento em um trançado especial e muito bonito; ouso dizer que fosse sonho de consumo de muita gente que não poderia pagar o alto custo de uma obra de arte dessas, toda feita à mão.

Pois bem, quando atingi a adolescência ela também me acompanhou e fazia parte integrante de meu quarto, juntamente com a escrivaninha, a cama, o criado-mudo (com um radinho de cabeceira) e a indefectível rádio-vitrola que me foi presenteada por meu pai, que apreciava os Beatles, Elvis Presley, etc… bem menos do que eu!

Acreditem: gastei a madeira torneada e tornei-a plana de tanto me balançar e, quando mudei de casa, minha cadeira me acompanhou, nessa época já devidamente em palhinha…

Nunca me ocorreu me separar dela, nem mesmo quando, no meu divórcio, meu ex-marido quis dividir tudo na moedinha, cara ou coroa: ela e minha coleção de caixinhas, todas em uma vitrine, foram consideradas “objetos de uso pessoal” (uuuuuufffffaaaa!!)

E eis que, nessa minha última mudança de casa, a madeira do assento se partiu.

Tendo passado por diversas trocas de palhinha até esta última, a madeira acabou quebrando e eu fiquei meses, com a foto do estrago, procurando quem pudesse fazer o conserto – já não existem lojas Thonet faz tempo e quem faça o trançado da palhinha (sintética e não mais indiana)!

E, de repente, descubro na internet, o senhor Adão.

Vejo ilustrações de seus trabalhos, resolvo ligar e mandar fotos da cadeira capenga, em novembro. Ele responde e diz tratar-se de um conserto difícil e que, se eu resolvesse fazer, seria só depois das festas.

Pergunto como ele imaginaria fazer e ele me responde no Whatsapp, com a maior sinceridade: “Improvisando.” Com essa ele me ganhou INSTANTANEAMENTE!

Perguntei o valor, ele disse uma cifra absolutamente palatável, sem qualquer abuso, ainda que, claramente, ele soubesse que se tratava de uma antiguidade.

“Fechei” com ele, desejei Felizes Festas e fiquei aguardando a retirada da cadeira.

Chegou finalmente o dia tão esperado e ele veio retirar.

Chega num carro impecavelmente limpo e bem cuidado, um senhor negro, de carapinha grisalha, alto, bem magro, óculos fundo de garrafa, delicado, bem falante, muito simpático, que vai merecer um capítulo à parte…

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.