
De: Tim Mielants, Irlanda-Bélgica, 2024.
(Disponível no Amazon Prime Video em 7/2025.)
Pequenas Coisas Como Estas, co-produção Irlanda-Bélgica de 2024, é uma beleza de filme. Consegue ser profundamente emocionante ao falar de um tema real bárbaro, cruel, apavorante, sem exibir qualquer tipo de imagem ou mesmo de fala clara, evidente, explícita, gráfica.
Tudo, absolutamente tudo, em Small Things Like These (os exibidores brasileiros sabiamente foram fiéis ao original), é implícito, subentendido, velado, encoberto, escondido.
Fiquei pensando, ao ver o filme – cuja força e beleza vêm, em grande parte, da fantástica, impressionante interpretação de Cillian Murphy, esse gigante –, que as pessoas que jamais tenham ouvido falar nas Magdalene laundries da Irlanda poderão ter até alguma dificuldade em compreender exatamente o que está se passando ali naquela pequena cidade do interior profundo irlandês.
Essa opção pelo velado, pela fuga absoluta do explícito, não é, de forma alguma, uma coisa focada no formal, no estilo. Me pareceu, ao contrário, que a forma tem absolutamente tudo a ver com o conteúdo, com o tema que está sendo abordado.
Para mim, e também para a Mary, o que o filme expõe – e de forma clara, firme, forte – é que tão culpada quanto as freiras católicas pela violência contra as jovens garotas que engravidavam sem casamento era a própria sociedade do interior da Irlanda, a sociedade como um todo. Cada família, cada pessoa – e o conjunto de todas elas.
Todas as pessoas ficavam em silêncio diante da forma com que as freiras tratavam as meninas entregues a elas pelos pais, e eram submetidas a uma vida praticamente de trabalho escravo, com punições e punições e punições para as que fizessem qualquer gesto de rebeldia ou de mínima desobediência às ordens ditatoriais.
O descalabro praticado em diversas, diversas cidades em conventos de freiras, a violência absurda contra as jovens grávidas, o roubo de suas crianças para a venda a famílias mais abastadas e sem filhos – tudo era de conhecimento de todos. Mas ninguém ousava falar contra aquilo, porque as freiras eram poderosas, os conventos tinham dinheiro e eram os responsáveis pelas boas escolas para as crianças e adolescentes das “boas famílias”.
Small Things Like These é a história de William Furlong, um homem torturado pelo seu próprio passado, um honesto, corretíssimo pai de cinco filhas, um trabalhador de profissão duríssima, um carvoeiro, que ousou remar contra a maré da hipocrisia ampla, geral e irrestrita.
A interpretação de Cillian Murphy como esse sempre angustiado, sempre torturado William Furlong é uma daquelas coisas absolutamente inesquecíveis. Um momento de excelência do cinema.

Bill vê uma moça sendo forçada a entrar no convento
O filme começa com diversas tomadas – belíssimas – de uma pequena cidade ao alvorecer. Em seguida, vemos uns poucos homens trabalhando em uma carvoaria. Logo veremos que William Furlong é o dono da pequena empresa de pouquíssimos empregados – e ele trabalha muito, desde o raiar do dia, um trabalho duro, sujo, pesado, figurativa e concretamente falando. Carrega nas costas grandes sacos de carvão, do depósito na carvoaria até um velho caminhão, e depois do caminhão para diversas casas e empresas da cidade.
No momento em que Bill Furlong está carregando sacos de carvão do caminhão para o que parece ser um depósito, junto de uma edificação maior, ele primeiro ouve as vozes de duas mulheres, e logo em seguida as vê. Uma mulher adulta empurra uma jovem em direção à edificação grande, que a câmara não mostra direito. A jovem grita muito, diz que não quer ir para aquele lugar, repete várias vezes a palavra “não”. A mãe continua empurrando a filha. A garota pede ajuda ao pai, que está dentro de um carro parado ali perto – o pai não responde, não se move. Bill – assim como o espectador – ouve o nome da garota, falando pela mãe que a força a entrar na porta que uma freira abre. Chama-se Sarah (o papel de Zara Devlin).
Algumas sequências nos mostram um pouco do dia a dia de Bill, no trabalho, almoçando em um bar da cidade lotado de trabalhadores, depois em casa, onde, ao chegar, já à noite, limpa o rosto e as mãos cobertas de sujeira do carvão, antes de se reunir à mulher, Eileen (o papel de Eileen Walsh), e as cinco filhas.
A casa da família é modesta, simples, pobre – mas não miserável. Típica casa de working class das Ilhas Britânicas.
Apesar de trabalhar duro, pesado, como um escravo nas galés romanas, Bill Furlong não dorme bem. No meio da madrugada, se levanta da cama, vai para um lugar da casa que tem uma grande janela, e fica ali olhando para fora, para o infinito, para o nada, tomado por suas lembranças, suas angústias.
Vamos ver na tela lembranças de sua infância.

A mãe de Bill ficou grávida solteira, e foi entregue às freiras
Nas primeiras sequências, fala-se que o Natal se aproxima.
Não há, ao longo de todo o filme, nenhum letreiro explicitando o quando e o onde. Eu não vi – ou não percebi – nenhum indicativo claro do ano daquele Natal que está chegando, mas a Wikipedia crava que é 1985.
(As instituições Madalena existiram na Irlanda entre 1922 e 1988 – e esse dado o espectador não precisa procurar na internet depois de ver o filme: as duas datas são citadas em um letreiro que surge ao final da narrativa, antes dos créditos finais.)
Mês de dezembro de 1985. Alguma cidade bem pequena da Irlanda – já na segunda metade do filme, fala-se o nome dela, Wexford. (Vejo que fica no Sudeste do país, ao Sul de Dublin, e tem atualmente menos de 9 mil habitantes.)
É também dezembro, alguns dias antes do Natal, quando vemos pela primeira vez o garoto Bill Furlong (interpretado por Louis Kirwan, na foto acima, dublinense de 10 anos de idade na época das filmagens, em seu primeiro papel no cinema).
O garoto Bill está na sala ampla de uma casa confortável, com uma senhora simpática, de modos educados, agradáveis. Ela pergunta o que ele gostaria de ganhar, ele responde que seria um jigsaw puzzle – um quebra-cabeças de peças. O espectador poderia pensar que a senhora é a mãe do garoto – mas ele a chama de Mrs. Wilson (o papel de Michelle Fairley). Algum tempo depois, haverá indícios de que a mãe de Bill, Sarah (Agnes O’Casey), é a empregada da casa de Mrs. Wilson.
Também sem que nada seja dito explicitamente, veremos que Sarah – assim como tantas e tantas moças que foram parar nas chamadas lavanderias Madalena, trabalhando quase como escravas – ficou grávida de Bill solteira. Mas teve a sorte grande, imensa, de ser acolhida por essa bondosa – e um tanto abastada – Mrs. Wilson.
Sequências passadas em dezembro de 1985 vão se alternando com outras passadas em dezembro daquele ano lá atrás, quando Bill era um garoto aí de uns 10 anos.
Bill fica órfão cedo demais – Sarah morre de repente, bem jovem ainda. Pelo que o espectador pode inferir, ele continuou sendo criado pela antiga patroa de sua mãe. Apesar dessa sorte, no entanto, cresceu sem mãe e sem ter conhecido o pai. Pessoa extremamente sensível, sofreu muito com isso. E tornou-se um adulto extremamente bom caráter e trabalhador – mas angustiado, tenso, insone.

O filme é dedicado às jovens que sofreram nos conventos
As entregas de carvão ao convento das freiras eram frequentes. Numa delas, ele revê aquela moça que havia sido levada à força pela mãe para o trabalho quase escravo na lavanderia pertencente ao convento – a moça que, por uma dessas coincidências de que é feita a vida, tem o mesmo nome de sua mãe. Em uma outra entrega, um pouco mais tarde, ele encontra Sarah deixada lá dentro do depósito de carvão, tiritando de frio naquele dezembro gelado. Bill leva a moça de volta ao convento – e a madre superiora encena uma reação de surpresa, como se a moça houvesse fugido e se escondido no depósito. – “Ah, então você foi encontrada! Nós já estávamos pensando em avisar a polícia sobre o seu desaparecimento”, diz a madre superiora, o papel de uma Emily Watson – aquela atriz belíssima, na foto acima – tornada feia por interpretar um ser humano terrivelmente cruel.
Insisto na coisa de que nada é explícito, nada é dito claramente: o filme não mostra que Sarah havia sido não colocada no depósito sem porta externa, gelado, como punição por mal comportamento. O espectador deverá perceber isso, deduzir, inferir.
Havia uma fatura pendente a ser paga a Bill pelas mais recentes entregas de carvão. A madre superiora convida o carvoeiro para entrar e tomar um chá com ela. Paga a fatura – e em seguida enfia um bolo de notas dentro de envelope, no qual escreve o nome da mulher dele. – “Entregue isso a Eileen”, diz ela, depois de fazer perguntas sobre as filhas dele.
O letreiro que aparece ao fim da narrativa, antes dos créditos finais, é o seguinte:
“Dedicado às mais de 56.000 jovens que foram enviadas às instituições Magdalene para ‘penitência e reabilitação’ entre os anos de 1922 e 1988. E às crianças que foram tiradas delas.”
O sistema de opressão teve o apoio silencioso do Estado
É forçoso registrar informações sobre as “lavanderias Magdalene”, ou “asilos Magdalene”, instituições mantidas por ordens de freiras da Igreja Católica não a partir de 1922, mas na verdade desde o século XVIII.
A Wikipedia informa: “O Dublin Magdalen Asylum, às vezes chamado de Magdalen Asylum for Penitent Females (Asilo Madalena para Mulheres Penitentes), foi a primeira dessas instituições na Irlanda. Era dirigida pela Igreja da Irlanda e aceitava apenas mulheres protestantes. (…) Fechou em 1994 e foi ‘o mais duradouro Lar para Mães e Bebês da Irlanda’. Os asilos Madalena dirigidos por (freiras) católicas duraram um pouco mais, até 1996. As lavanderias Madalena irlandesas eram silenciosamente apoiadas pelo Estado, e operaram por comunidades religiosas por mais de 200 anos. (…) As internadas eram obrigadas a trabalhar, basicamente em lavanderias, já que os locais se pagavam. (As pesquisadoras) Andrea Parrot e Nina Cummings escreveram: ‘O custo da violência, opressão e brutalização das mulheres era enorme’, e, em sua luta para sobreviver, as internadas sofriam não apenas psiquicamente, como espiritualmente e emocionalmente.”
Esse gigantesco absurdo começou a acabar em 1993 – oito anos após a época mostrada em Pequenas Coisas Como Estas: “Em 1993, covas sem identificação de 155 mulheres foram encontradas no solo de uma das lavanderias. Isso levou à revelação pela imprensa das operações das instituições dissimuladas. Um pedido de desculpas do Estado foi feito em 2014, e um esquema de compensação para as sobreviventes foi organizado pelo governo irlandês. (…) As ordens religiosas que operaram essas lavanderias têm rejeitado os pedidos, inclusive das vítimas e do Ministério de Justiça da Irlanda, para contribuir financeiramente com esse programa (de compensação).”

Entre os produtores, Ben Affleck, Matt Damon e Cillian Murphy
Antes deste excelente, houve pelo menos dois grandes filmes que abordam as Magdalene laundries. Philomena (2013), do grande Stephen Frears, com Judy Dench e Steve Coogan, e Em Nome de Deus/The Magdalene Sisters (2002), de Peter Mullan, com Eileen Walsh, Dorothy Duffy e Nora-Jane Noone, vão muito fundo na vergonhosa, intolerável maneira com que eram tratadas as moças que “caiam no pecado”. Neste Pequenas Coisas aqui, é bom lembrar, Eileen Walsh (na foto acima) faz a mulher do protagonista Bill.
Escrevi longamente sobre Philomena – mas, não sei por que raios de motivo, sobre The Magdalene Sisters, que vimos no DVD, em março de 2005, anotei apenas a ficha técnica, dei 3,5 estrelas em 4, e registrei: “O filme é o segundo longa-metragem do diretor. Ganhou o Leão de Ouro em Veneza”.
São obras preciosas, as duas – agora são três.
O livro Small Things Like These foi lançado em outubro de 2021; sua autora, Claire Keegan, é dublinense da classe de 1968, e se tornou conhecida a partir de 1999, quando lançou seu primeiro livro de contos, Antarctica, vencedor de dois prêmios literários na Irlanda. Um conto do seu segundo livro, “Foster”, também publicado na revista New Yorker, em fevereiro de 2010, foi adaptado para o cinema, com o título em irlandês, An Cailín Ciúin,|The Quiet Girl em inglês.
O ator Cillian Murphy contou que, quando leu “Foster”, em uma viagem de trem, teve que puxar seu capuz para cobrir o rosto cheio de lágrimas.
Mas, embora fã da escritora, Cillian Murphy – ele também irlandês, de Cork, da classe de 1976, um ano mais novo que minha filha – fez questão de dizer, em entrevista, que foi de sua mulher, a artista plástica Yvonne McGuinness, a sugestão de que o livro Small Things Like These fosse adaptado para o cinema: “Eu tenho que dar o crédito a ela”.
Cillian Murphy comentou sobre o projeto de fazer o filme com Matt Damon, durante as filmagens de Oppenheimer (2023), de Christopher Nolan – Murphy interpreta J. Robert Oppenherimer e Damon, o coronel Leslie Groves, o escolhido pelo governo dos EUA para comandar o Projeto Manhattan. Matt Damon e seu velho amigo Ben Affleck – que lá atrás, em 1997, haviam escrito o roteiro original de Gênio Indomável/Good Will Hunting, vencedor do Oscar – acabavam de criar sua própria companhia produtora, Artists Equity. Em março de 2023, foi anunciado o projeto de levar o romance de Claire Keegan para o cinema.
Confesso que Mary e eu levamos um susto ao ver, nos créditos finais, os nomes de Matt Damon e Ben Affleck entre os produtores. Cillian Murphy foi outro que participou como produtor. Ponto para os três!
Para a direção, foi escolhido um nome que eu não conhecia, Tim Mielants, um jovem belga de Flandres, a parte flamenca do país bilíngue. O diretor é ainda mais jovem que Cillian Murphy – é de 1979. Jovem, mas experiente: este Small Things Like These é o 17º título de sua filmografia como diretor, e ele já ganhou oito prêmios e 11 indicações, inclusive uma ao Bafta da TV pela série The Responder, de 2023.
Muitas das cenas externas foram rodadas em New Ross, no condado de Wexford, o lugar onde se passa a história criada por Claire Keegan.
O filme abriu o 74º Festival de Berlim, em fevereiro de 2024, e lá a maravilhosa Emily Watson ganhou o Urso de Prata de melhor atriz coadjuvante. A recepção da crítica foi, de maneira geral, muito boa. Em julho de 2025, quando vimos o filme, ele estava com 94% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes, e 81% do público. No IMDb, tinha nota de 6,7 em 10, média da avaliação de 28 mil leitores do site enciclopédico.
E, no site Metacritic, tinha 82 em 100, baseado nas opiniões de 28 críticos, indicando “aclamação universal”.
Merecidíssimo. É um grande filme.
Anotação em julho de 2025
Pequenas Coisas Como Estas/Small Things Like These
De Tim Mielants, Irlanda-Bélgica, 2024.
Com Cillian Murphy (Bill Furlong),
Eileen Walsh (Eileen Furlong, a mulher de Bill),
Louis Kirwan (Bill garoto), Michelle Fairley (Mrs. Wilson, a patroa de Sarah, mãe de Bill), Agnes O’Casey (Sarah Furlong, a mãe de Bill), Clare Dunne (irmã Carmel), Peter Claffey (Barry), Helen Behan (Mrs. Kehoe, a dona do pub), Liadán Dunlea (Kathleen Furlong, a filha mais velha de Bill), Mark McKenna (Ned, o empregado de Mrs. Wilson), Zara Devlin (Sarah Redmond, a jovem presa no convento)
e, em participação especial, Emily Watson (irmã Mary, a Madre Superiora do convento),
Roteiro Enda Walsh
Baseado no livro de Claire Keegan
Fotografia Frank van den Eeden
Música Senjan Jansen
Montagem Alain Dessauvage
Casting Maureen Hughes
Desenho de produção Paki Smith
Direção de arte Irene O’Brien
Figurinos Alison McCosh
No Amazon Prime Video. Produção Matt Damon, Catherine Magee, Alan Moloney, Cillian Murphy, Drew Vinton, Artists Equity, Fís Éireann/Screen Ireland, Big Things Films, Wilder Content.
Cor, 98 min (1h38)
Fonte: 50 anos de cinema

