7 de outubro de 2026
Rodrigo Constantino

Divergência política sim, mas sem desumanização

O voto continua livre. O direito de criticar governos, ricos, bandeiras e partidos continua inteiro. O que não cabe, de nenhum lado, é a desumanização. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

No calor da disputa eleitoral, os nervos ficam mais à flor da pele. É mais frequente, nessa ocasião, os ataques contra os adversários políticos. Eu mesmo não vou me isentar de responsabilidade: minha fala sobre a Bahia ser o câncer do Brasil pegou muito mal, e muitos baianos se sentiram ofendidos. Eu não quis dizer que o baiano em si era um câncer, e sim que o estado era reduto do petismo, que julgo ser uma praga política que espalha miséria pelo povo. Mas entendo que a fala possa ter gerado confusão e me retrato perante quem se sentiu atingido. Meu objetivo é eliminar o lulismo no estado, não eliminar o estado do país.

A divergência política é sempre legítima. Eu diria fundamental em qualquer democracia. O que não é legítimo é tratar o outro como menos gente por causa dela. Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a pior tragédia climática da sua história. As chuvas deixaram cerca de 183 mortos, dezenas de desaparecidos e mais de 2,3 milhões de pessoas atingidas. Cidades inteiras ficaram debaixo d’água. Famílias perderam casa, documento, trabalho e, em muitos casos, alguém que amavam. Diante disso, o mínimo que se espera de uma sociedade adulta é solidariedade. O que parte da internet ofereceu foi outra coisa.

Enquanto gente era resgatada de telhado, circularam vídeos e posts tratando as vítimas como categoria política. Uma influenciadora chegou a rir de imagens da enchente e a falar em “bolsominions” sendo levados pela água, como se gado e eleitor fossem a mesma coisa e como se a morte de um deles fosse piada. Outros repetiram a tese de que os gaúchos “mereciam”, porque o estado votava à direita. O raciocínio é tão cruel quanto falso: a água não escolhe cédula. Afundou bolsonarista, petista, quem não vota e criança que ainda não entende o que é partido.

Política sem civilidade não fica mais radical. Fica mais burra e desumana. Quem precisa zombar de morto, ameaçar criança ou ofender adolescente já perdeu o argumento

Anos depois, no primeiro turno de 2026, com a eleição de Luciano Zucco ao governo do estado, a praga voltou em comentários públicos: que o Rio Grande do Sul afundasse de novo, para “ver o que é bom”. Desejar enchente a quem votou diferente não é crítica. É desejo de sofrimento. É simplesmente desumano! Nikolas Ferreira resgatou várias dessas mensagens podres para mostrar que muitos, na esquerda, esquecem do básico sobre o convívio social.

O mesmo gesto aparece quando o alvo não é um estado, e sim uma criança. Em 2025, uma foto da filha de Roberto Justus e Ana Paula Siebert, Vicky, então com cerca de cinco anos, segurando uma bolsa de grife, viralizou. Alguém comentou que “os bolcheviques estavam certos”. Marcos Dantas, professor aposentado da UFRJ e ligado a um grupo de pesquisa marxista, respondeu: “Só a guilhotina…”. Depois disse que era metáfora, ironia histórica, e pediu desculpas. A universidade repudiou a fala.

A família entendeu o óbvio: falar em guilhotina diante da foto de uma menina não é debate sobre consumo ou desigualdade. É reduzir uma criança a símbolo de classe e brincar com a ideia da morte dela. Dá para criticar ostentação, herança e desigualdade sem convocar o cadafalso para uma menina de cinco anos.

O caso mais recente é o de Rafa Justus, de 17 anos, filha de Justus e de Ticiane Pinheiro. No primeiro turno de 2026 ela postou o comprovante do primeiro voto da vida, de regata com a bandeira do Brasil. A partir de um pedaço de tecido, estranhos decidiram em quem ela tinha votado, no que acreditava e o que merecia ouvir. Vieram ataques à aparência, à inteligência e xingamentos que ela mesma chamou de gratuitos.

A frase dela resume o que este texto inteiro tenta dizer: discordância é uma coisa, ódio gratuito é outra. Usar a bandeira do próprio país não deveria exigir justificativa. E, mesmo que exigisse, mesmo que o voto fosse o oposto do meu, isso não autorizaria chamar uma adolescente de burra ou de horrorosa. Uma adolescente, diga-se, que tem uma história de superação por conta da estenose crânio-facial (também chamada de cranioestenose), uma condição congênita caracterizada pelo fechamento precoce das suturas (articulações) entre os ossos do crânio.

Esse tipo de desumanização é extremamente perigoso. Vide o que aconteceu com Charlie Kirk nos Estados Unidos, assassinado por suas ideias, deixando duas filhas pequenas órfãs. Muitos à esquerda aplaudiram! O mesmo no caso do assassinato de um CEO de uma farmacêutica em Nova York: o autor do crime virou “herói” para uma ala fanatizada dos “progressistas”.

Nenhum desses episódios é isolado, e nenhum deles é exclusivo de um lado. A direita também desumaniza, também espalha mentira no meio da tragédia, também transforma adversário em inimigo mortal a ser eliminado. O ponto não é fingir que só um campo erra. O ponto é recusar o álibi. Não basta dizer que o outro lado começou. Quando a enchente vira troféu, quando a filha do rico vira alvo de guilhotina e quando a bandeira na roupa de uma menor vira licença para o insulto, o que está em jogo já não é o programa de governo. É a ideia de que a pessoa do outro lado continua pessoa.

Política sem civilidade não fica mais radical. Fica mais burra e desumana. Quem precisa zombar de morto, ameaçar criança ou ofender adolescente já perdeu o argumento. O voto continua livre. O direito de criticar governos, ricos, bandeiras e partidos continua inteiro. O que não cabe, de nenhum lado, é a desumanização.

Fonte: Gazeta do Povo

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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