28 de maio de 2022
Ricardo Noblat

Uma fenda no Titanic

Todo cuidado é pouco

Sobreviventes usam botes salva-vidas, enquanto o Titanic mergulha sob as ondas
(Hulton Archive/Getty Images)

Sobre decisões bizarras ou apenas controversas do Supremo Tribunal Federal, diz-se que produzem insegurança jurídica. E sobre decisões que o presidente Bolsonaro toma e depois recua? Ou declarações que faz e depois nega? Elas produzem o quê?
Nas últimas 48 horas, Bolsonaro investiu contra a lei do teto de gastos aprovada pelo Congresso ainda ao tempo do presidente Michel Temer. Segundo ele, seria uma questão simplesmente “matemática” – se as despesas crescem, o teto tem de aumentar.
Foi um Deus nos acuda dentro da área econômica do governo e entre os agentes do mercado financeiro. Embora esteja rouco de repetir que não entende patavinas de economia, Bolsonaro é o presidente. O que ele diz merece ser escutado e levado em conta.
Depois de uma conversa com o ministro Paulo Guedes, antes de Guedes voar a Fortaleza para dizer que a mulher do presidente francês é mesmo feia, Bolsonaro voltou atrás. Desrespeitar a lei do teto de gastos “seria abrir uma fenda no Titanic”, ele explicou.
É razoável supor que Bolsonaro tenha comparado o Brasil ao transatlântico Titanic – ambos de gigantescas dimensões. Não foi uma comparação feliz porque o Titanic afundou na sua viagem inaugural. Das 2.200 pessoas a bordo, apenas 705 sobreviveram.
Mas Bolsonaro não é obrigado a ter assistido ao filme a respeito do desastre (ele gosta de filmes de guerra e de desenho animado). Nem é obrigado a pelo menos consultar o Google antes de fazer considerações sobre o que desconhece.
Como desconhece quase tudo e tem por hábito dizer, negar, reafirmar o que disse para em seguida negar ou manter adiante, Bolsonaro acaba produzindo (agora, sim) insegurança governamental. Fora seus devotos, quem pode confiar nele?
Toda atenção, portanto, é pouca com essa história de revogar ou não a lei do teto de gastos. Bolsonaro elegeu-se prometendo quebrar o sistema. Somente ele sabe a extensão do estrago que gostaria de promover.
Fonte: Blog do Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

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