18 de setembro de 2026
Paulo Polzonoff

Lázaro depois da ressurreição

E aí, Lázaro? O que você viu lá? Como é a vida dos mortos? (Foto: Grok)

Jesus ressuscitou Lázaro. Que, esfregando os olhos, tenta se ajustar à luminosidade da vida. Quem? Quando? Como? Por quê? – se pergunta ele, confuso. Ao seu redor, as pessoas irrompem em gritos de júbilo. Alguém tira do bolso um bloquinho e anota: João 11:1-46. Em todo caso, gritos e palmas e lágrimas da mulherada. Não só porque estão diante de Deus feito homem realizando um milagre, mas também pela ressurreição de Lázaro, claro. Ele que faria falta na mesa de biriba, além de ser uma companhia maravilhosa no bar. Lázaro que sempre tinha um dito espirituoso para falar, arrancando gargalhadas de todos. Até quem não entendia ria.

Ainda fraco da experiência, e sujo de conviver com os mortos (que catinga!), ele foi tomar um banho e uau. O vislumbre da Eternidade, ou melhor, a lembrança desse mesmo vislumbre o atordoa. Ele quase cai, bate a cabeça e aí baubau. Teriam que chamar Jesus de novo. Depois do banho, Lázaro encontra a sala de casa cheia. E aí, Lázaro? O que você viu lá? Como é a vida dos mortos? A vida dos mortos. Lázaro fica pensando naquilo e ri do paradoxo. Ou seria antítese? Lázaro não tem certeza da figura da linguagem e novamente ri. Ele que não tem vergonha de ser assim, um bobo-alegre ressuscitado.
Eita!

— Eu acho que ele ficou puto! — diz o Chico, interrompendo a crônica. Vocês conhecem o Chico, né? Grande sujeito! Mas agora ele vai ter que explicar o porquê da irritação de Lázaro e o Chico explica: voltar à vida? Para isto aqui? Este Vale de Lágrimas? Para Curitiba? Lázaro que se desfaz da mortalha e sai pisando pesado, todo machinho mesmo. No dia seguinte ele vai ter que trabalhar. Lidar com pessoas. Ouvir lamúrias de quem ignora a Verdade. Eita, Lázaro! Vai ter que ter muita paciência, hein, cara. Ou então vai ter que andar por aí com uma camiseta “Eu voltei dos mortos. Me deixa”. O Chico ri e diz que é uma boa ideia. (Não é).

Lázaro que traz no rosto um sorriso incômodo de tão perene e diz para o Chico que não. Não é nada disso. Muito pelo contrário. É bom acordar pela manhã. Sentir o sol na cara. E respirar fundo, muito fundo. Sentir o sabor do ar enchendo os pulmões. E até essas contrariedades cotidianas. O governo, o vizinho, o amigo chato que te liga para dizer que está se sentindo um leproso. Tudo é tão…! Lázaro serve o Chico, se serve, serve o William e devolve a cerveja ao como-é-o-nome-daquele-treco. Come um lambari. Propõe uma rodada de rollmops só para ver o Geraldo chorar de novo. Ri, ri muito, ri mais. A vida é boa. Pena que acaba.

Fonte: Gazeta do Povo

Paulo Polzonoff Jr

Jornalista, tradutor e escritor.

Jornalista, tradutor e escritor.

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