16 de agosto de 2026
Paulo Polzonoff Jr

Todo dia 15 de agosto é (quase) a mesma coisa

15 de agosto é hoje. (Foto: Reprodução)

Todo dia 15 de agosto é a mesma coisa. Acordo meio espantado e tento fingir que é um dia como qualquer outro. Tomo banho, café e tal. Aí minha mulher me pergunta se estou bem. “Até agora, sim”, respondo, rindo de nervoso. E sigo minha gostosa rotina como se fosse um dia normal. Não é. Tudo por causa de um sonho que tive há uma década ou mais. Um sonho no qual ouvi a revelação fatídica de que um dia 15 de agosto será meu último.

No sonho, estava atravessando a Praça Osório, indo não sei de onde para não sei que lugar, quando uma cigana me puxou pelo braço. Se ela fez outras previsões, não lembro. Se me disse os números da Mega Sena, não anotei no caderninho que mantenho no criado-mudo. Sei, porém, e me lembro todos os anos, dessa previsão que vou chamar de profecia só para soar mais importante do que uma reles superstição: a de que morrerei num dia 15 de agosto. A cigana não me disse o ano. Ou talvez eu não tenha querido ouvir.

Até que é legal

Não acredito nessa coisa toda de sonho e profecia cigana. Claro. Mas a pulga me morde aqui atrás da orelha. Fica coçando. “Tudo bem aí?”, acabou de me perguntar novamente minha mulher. “Até agora, sim”, respondi a resposta de sempre, pensando no Rafael Ruiz, meu amigo que neste exato momento está lá na UTI, depois de sofrer um infarto daqueles. Este ano, pois, a morte no dia de hoje deixou de ser uma hipótese “engraçada”. Ganhou outros contornos. O Rafael que sabe dessa história do sonho, que já riu dela, e que agora pode, mas não vai, morrer num dia 15 de agosto. Passa logo, dia agourento!

No geral, porém, até que é legal, sabia? Todo dia 15 de agosto acordo com essa lembrança ridícula. E por nisso nesse dia as coisas ganham um sentido diferente. O café não é igual. É melhor. Tem sabor de… vida. O trabalho idem. Cada gesto e palavra tem um peso que é ao mesmo tempo maior e menor. Sei lá. Atravesso a rua com mais cuidado. Fico mais atento à beleza que me rodeia. Procuro beija-flores. E durmo com a certeza falsa e tola de que viverei até os 84 anos (chute meu). Olha, arrisco dizer até que sou mais grato a Deus neste dia que é para ser meu último. Mas não é. Ou pelo menos não foi.

Fonte: Gazeta do Povo

Paulo Polzonoff Jr

Jornalista, tradutor e escritor.

Jornalista, tradutor e escritor.

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