Réquiem para o museu

Primeiro, fiquei espantadíssima, não conseguia acreditar. Depois, senti raiva e revolta. Agora, sou só tristeza. É inacreditável que o Museu Nacional e a Quinta da Boa Vista estejam reduzidas a cinzas.
Acompanho o jogo de empurra de acusações. Cada um aponta o dedo para o outro na intenção, muito brasileira, de alcançar dividendos políticos com a tragédia. A culpa é do reitor da UFRJ, dos bombeiros, do Lula, da Dilma, do FHC, do Bolsonaro, do papa, de dom Pedro II, etc e tal.

Pode ser que me engane, mas acredito que a culpa é nossa, da sociedade brasileira e de seus representantes políticos, trogloditas que são eleitos e reeleitos há décadas. Com raras e honrosas exceções, nem eles nem ninguém sabe o que é cultura, o que é Arte. O brasileiro não lê, não visita os próprios museus, não se interessa por sua História, despreza as exposições de artistas famosos que, eventualmente, acontecem em nossa praia. Parece mentira, mas o museu queimou e, só então, a maioria esmagadora da população soube que importantes trabalhos de pesquisas científicas eram realizadas naquele espaço.
Há um Ministério da Cultura, dizem. Mas esse Ministério desconhece o que é cultura. Confunde cultura com paetês, lantejoulas e polêmicas nos jornais. Quanto mais brilho e mais mídia, melhor. Acredita que Arte, assim, com letra maiúscula, é aplicar recursos da Lei Rouanet em espetáculos de gosto duvidoso que, fora de nossas fronteiras, não passariam de lixo.
Enquanto isso, o Museu Nacional apodrecia, como também apodrece a Biblioteca Nacional, que tem em seu acervo um exemplar da primeira bíblia impressa por Gutemberg, em 1462. É tão valiosa cultural e financeiramente que não se pode calcular um preço para ela. Bibliotecários estimam em centenas de milhões de dólares. Mas a bíblia está lá, jogada num prédio cheio de infiltrações e com gambiarras por todo o lado porque, para o Ministério da Cultura, é mais importante financiar shows de Pabllo Vittar que, além de péssima cantora, não traz nada de novo, de invocativo, de questionador. Sequer é esteticamente de vanguarda. Vittar é apenas mais um travesti ou transexual, como queiram. Seu diferencial é entender de marketing e/ou conhecer as pessoas certas.
Agora não há mais o que fazer, apesar de o prefeito Crivella ter afirmado que reporia item por item do museu.
Não poderia encontrar melhor exemplo da ignorância nacional que acabei de descrever.
Só nos resta chorar.

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