1 de julho de 2022
Sergio Vaz

Canções, Natal, Marina

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E coincidências, essa coisa que, dizem, não existe.
Quando Neil Young lançou After the Gold Rush, eu tinha 20 anos, dois de São Paulo. Era uma época de inícios: começava a trabalhar no Jornal da Tarde e, no começo do ano seguinte, começaria a namorar a menina mais especial do pedaço e a fazer Jornalismo na ECA. Nem me lembro por que, mas o LP e a canção que dá o nome a ele ficou na minha cabeça com um gostinho de ECA, de juventude, de muito sonho à frente.
Hoje, 46 Natais depois, no ano em Mary viu Neil Young ao vivo num deserto da Califórnia, topei por puro acaso no YouTube com um vídeo do trio Emmylou, Dolly & Linda cantando “After the Gold Rush”. As três gravaram a canção no disco Trio II, de 1998, mas a sensação que tive ao ver o vídeo, as marcas da idade já fortes nas três cantoras que admiro há tanto tempo, foi de que aquela era uma gravação bem mais recente.
Emocionou.
Postei o vídeo no Facebook, e até postei também outra versão de “After the Gold Rush”, a feita pela k. d. lang para o álbum Hymns Of The 49th Parallel, de 2004, só com músicas de compositores canadenses.
Aí fui tomar banho antes de ir ali na casa da minha filha para a noite de Natal e, como sempre, deixei o iPod no modo shuffle, randômico, ao azar – e aí, entre as mais de 15 mil músicas que poderiam tocar, tocou “After the Gold Rush” com k. d. lang.
Passei anos ouvindo da minha irmã citar frase que ela atribuía a Nietzsche: “coincidências não existem”. Ao que às vezes eu rebatia com aquela outra, que alguns atribuem a Einstein: “coincidências são a maneira de Deus permanecer anônimo”.

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Minha filha passou três Natais sem ter alegria alguma com a festa, depois que perdeu a mãe, a menina mais especial do pedaço, que era festeira, gregária, e se divertia juntando montes de gente em volta dela a cada Natal. Não tenho saudade alguma daqueles três Natais tristes que passei ao lado dela – tristes como será o deste ano para quem perdeu pessoas queridas. Meu Deus, e como todos nós perdemos pessoas queridas este ano.
Foram três Natais sem alegria alguma – mas, a partir do de 2013, Marina fez tudo mudar.
Este agora será o quarto Natal em que a filha da minha filha nos deixa babando de alegria.
Por coincidência, ou não, Marina passou a noite anterior à noite do Natal na casa do vovô. A primeira vez em que dormiu aqui só com o vovô – a vovó está em Belo Horizonte, com a mãe, os irmãos e a sobrinha dela.
Era a noite do especial do Roberto, e vi quase tudo. Perdi só o trecho com Caetano e Gil, porque exatamente naquela hora estava cuidando de pôr a pequena para dormir. Saí da sala levando Marina para o quarto que foi da mãe e agora é dela exatamente no momento em que Caetano cantava “Marina” de Caymmi. (A foto dela é da manhã do 24 de dezembro; a foto acima é de quando a mãe tinha a idade que Marina tem hoje. )

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Por coincidência – ou não –, o Arthur Dapieve publicou uma esplêndida crônica no Globo do dia 23 – o dia do especial do Roberto, o dia em que Marina dormiu aqui pela primeira vez só com o vô pra cuidar dela – sobre Joni Mitchell, outra canadense que admiro muito, assim como Neil Young e k. d. lang. No seu belo texto, Arthur Dapieve fala bastante de “River”, que Joni Mitchell gravou em Blue, seu álbum de 1971, um ano depois de After the Gold Rush.
Tenho Blue há muitos anos, é um disco belíssimo – profundo, que é preciso ouvir muito para que a gente vá percebendo toda a grandeza das canções –, mas foi só quando Madeleine Peyroux gravou “River” em dueto com k. d. lang, no álbum Half the Perfect World, de 2006, que finalmente descobri a música.
“Penso muito em Joni a cada dezembro”, escreveu Arthur Dapieve. “Em ‘River’, uma de suas músicas mais perturbadoras, mas cantada num jeitinho só dela, a narradora conta que o Natal está se aproximando. Enquanto as pessoas unem suas vozes em ‘canções de alegria e paz’, ela sonha patinar embora dali num rio congelado. ‘Mas não neva aqui, fica bastante verde’, lamenta. Para mim, este é o hino de todas as minhas inadequações natalinas.”
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As minhas próprias inadequações natalinas, seguramente amplificadas pela perda de Suely, me fizeram escrever um texto espantosamente desesperançado, “Ainda por cima inventamos o Natal”, em que dizia que, “como se não bastassem o câncer, a aids, o infarte, a proibição de fumar, de beber, de comer sal, gordura, tudo o que tem gosto e dá prazer”, como se não bastasse uma enumeração infindável de desgraças, ainda por cima inventamos o Natal. “Como se a vida fosse doce e mansa e tediosa como num filme sueco, como se não houvesse problema algum, aí inventamos o Natal, pra deixar todo mundo mais tenso, estressado, nervoso, na correria, na pressão – tem que encontrar fulano, tem que encontrar sicrano, tem que dar presente para este, este, este, este e aquele.”
Dias depois de tanta desesperança, escrevi um segundo texto, ainda bem amargo, mas já com um tom mais leve, que falava exatamente da canção “River”:
“Todo mundo que se irrita com Natal (e o número é muitíssimo maior do que se poderia imaginar) deveria ouvir Madeleine Peyroux e k.d. lang cantando ‘River’. É uma vingança suave, doce, melancolicamente doce, contra essa insanidade de hordas de pessoas fazendo compras freneticamente, freneticamente com a necessidade básica, urgente, absurda, estressante, de se mostrar feliz.”
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Em dezembro de 2014, fiz mais um texto sobre Natal e, como sempre, como quase todos os meus textos, falando de canções. Era totalmente, absurdamente diferente do tom dos dois anteriores.
Contava que tinha ido para a Avenida Paulista, e visto, claro, o que Paul Simon, na tristíssima “The Late Great Johnny Ace”, do disco Hearts and Bones, de 1983, chamou de “a maré do Natal”.
“E aí, depois da terceira cervejinha , comecei a achar o mundo não absolutamente cruel, e a Christmas Tide, afinal de contas, não tão horrorosa assim. Até creio ter visto algumas pessoas sorrindo. Então tá: give me love, give me peace on Earth.”
Em dezembro de 2014, troquei as canções tristes de Joni Mitchell e Paul Simon pela canção quente, positiva, pra cima, de George Harrison.
Claro: em 2014, já havia Marina.

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