A importância da embalagem: narrativa será crucial para convencer população da reforma previdenciária


Sempre repeti que os liberais fracassaram no departamento de marketing. O que queria dizer com isso é que temos os melhores argumentos, a teoria mais sólida e vasta comprovação empírica, e mesmo assim somos constantemente derrotados na arena política ou mesmo em debates. Um dos motivos é que damos ênfase demais à razão, e deixamos de lado as emoções. Só que elas importam também, e muito.
Sei que Paulo Guedes compartilha dessa minha visão. Em nossas várias conversas, ele sempre repetia que os liberais tinham sido assassinados politicamente por deixarem de lado o aspecto mais emotivo, permitindo que os socialistas usurpassem a preocupação com os mais pobres das religiões. Apresentar números, estatísticas e argumentos lógicos é importante, sem dúvida, mas se a coisa não tiver apelo aos sentimentos mais básicos da natureza humana, lascou.
É esse o contexto que explica a essência da reforma previdenciária apresentada pela equipe do ministro. Liberais mais puristas não gostaram da progressividade, e queriam contas individuais de capitalização logo de uma vez. Mas não é assim que a realidade política funciona. Como João Luiz Mauad escreveu, “A proposta de reforma da previdência enviada ao congresso é excelente. Dentro do possível, neste momento, ela tem o mérito de ser, ao mesmo tempo, economicamente eficiente e politicamente viável”. É um bom resumo.
E é politicamente viável justamente porque tem apelo emocional em sua narrativa. O foco está em retirar de quem tem mais e aliviar quem tem menos, combater privilégios e ajudar os mais pobres. Soa um pouco socialista? Tem uma pitada de Robin Hood? Bem, se lembrarmos que o Robin Hood original dos mitos tirava de quem tinha usurpado para devolver ao povo, então pode até ser. Não é simplesmente tirar de quem tem mais, ou adotar o slogan marxista “de cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com sua necessidade”. Não é disso que se trata!
É desfazer injustiças, cortar privilégios – tanto que a categoria dos funcionários públicos, como já era esperado, está se mobilizando para impedir as mudanças como grupo mais afetado – e fazer tudo isso com um toque “humanitário”. Chama-se pragmatismo, não demagogia. Aponta na direção certa, mas caminha com cautela e realismo. Merval Pereira reconheceu a relevância dessa guerra de narrativas em sua coluna de hoje:
A proposta da equipe econômica, comandada por Paulo Guedes, está sendo acompanhada de uma narrativa política que fez falta nas últimas tentativas de reformar a Previdência. O único segmento em que haverá uma queda da arrecadação é o setor privado, porque o governo está reduzindo a alíquota daqueles que ganham menos, de 8% para 7,5%.
[…] O governo, através de seus membros políticos envolvidos na apresentação das medidas, especialmente o Secretário Rogério Marinho, que na quarta-feira deu uma entrevista esclarecedora ao J10 das Globonews, bate em uma tecla: investimentos represados em segurança pública, educação, saúde pública, infraestrutura, detonadores das manifestações de 2013 contra a má qualidade dos serviços públicos oferecidos, poderão ser realizados em beneficio do conjunto da sociedade brasileira.
Porque haverá um acréscimo de cerca de R$ 40 bilhões a cada ano, depois da reforma, para gastos do governo em setores que hoje estão à míngua. Além do próprio dinheiro público, o governo conta com efeitos colaterais positivos da reforma, como o incentivo ao investimento privado, brasileiro e internacional.
Gustavo Franco é outro economista que tinha essa preocupação com a embalagem: ajudou no Plano Real e na Lei de Responsabilidade Fiscal, cujo nome faz apelo positivo: quem pode ser contra a responsabilidade? Se fosse Lei de Austeridade haveria o mesmo apelo?
O jogo político precisa ser jogado, e não é o mesmo do debate econômico teórico. A progressividade e a manutenção de um caráter assistencialista na reforma podem incomodar os liberais, mas são partes importantes para vender a proposta ao público. E quem acha que não é preciso vende-la não entende de política e vive numa Torre de Marfim.
Tente vender um bom produto com uma embalagem nojenta para ver como é importante a forma, para além do conteúdo. Guedes entende como o liberalismo naufragou politicamente, apesar do sucesso que produziu. Ele acerta, portanto, ao demonstrar preocupação com a narrativa e os apelos emocionais. Tirar dos ricos privilegiados e dar para os mais pobres é um slogan com muito mais chance de persuadir do que “criar contas individuais de capitalização”, o que a maioria sequer vai compreender.
A reforma é boa, ainda que aquém do necessário, e o foco da narrativa está correto, ao bater na tecla de menos privilégios para os mais ricos, ajudando os mais pobres. Agora falta mesmo a tal articulação no Congresso. É o velho toma-lá-dá-cá, troca de cargos e verbas por votos, mas o governo vai chamar de outra coisa. Entende-se: a base jacobina do bolsonarismo não aceita na “nova era” a manutenção dessas práticas políticas. Chamem do que quiserem, desde que a reforma seja aprovada!
Fonte: Gazeta do Povo

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