Em defesa do Natal em família

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Esse é o segundo Natal que vou passar longe da família. Lamento isso, pois tenho as melhores recordações das noites de véspera de Natal na casa dos meus pais, com a família toda reunida, inclusive com os “agregados” (os familiares da minha cunhada e meu cunhado).
Sempre foi uma festa animada, um momento de rever algumas tias e primos que não encontrava com frequência durante o ano, além de ver a felicidade estampada na cara das crianças menores, a divertida troca de presentes no amigo oculto etc.
Por isso mesmo li a coluna de Contardo Calligaris na Folha hoje com certa pena do psicanalista. Ele, que sempre defendeu a subversão de valores morais “burgueses” e parece confundir libertinagem com liberdade, pelo visto só guarda lembranças ruins de sua própria família. E, para usar termo de sua área, parece projetar sua infelicidade nos demais. Diz ele:
“Se houver crianças, o evento será resgatado pela alegria delas na hora da distribuição dos presentes. Sem isso, mesmo nas famílias em que todos declaram se gostar, a reunião é um momento delicado, que quase sempre revela a complexidade dos laços familiares: as rivalidades, as frustrações de não ser amado como a gente queria, a estranheza que nos causa a proximidade de parentes que não têm nada a ver conosco.
[…]
O discurso da reunião familiar é sem objeto nem referência; ele tem só duas (grandes) funções: 1) expressar as emoções que repetimos desde a infância (ou seja, expressar nossa neurose infantil) e 2) lutar para manter o outro na escuta: hello, você está me ouvindo?
A reunião de família pode ser cômica? Sim, e seria bom que achássemos risível o ruído cotidiano de nossos afetos familiares. “Sieranevada”, aliás, é uma comédia que pode nos ensinar a descobrir a comédia da nossa vida. Tem mais: se você aguentar “Sieranevada”, está garantido que você aguentará seu almoço ou seu jantar de Natal.
Agora, depois do almoço ou jantar, encontre-se com amigos – diferentes dos parentes, eles são a companhia que você escolhe. Feliz Natal”.
Calligaris considera a família um “drama farsesco”, e não suporta a ideia de encontrar aquele tio “careta”, o primo “reacionário” ou o sobrinho que aderiu a “teorias conspiratórias” da internet. Tudo um saco, ou, se você for “esclarecido” e “analisado” como o autor, uma grande comédia. Nada comparado, claro, a encontrar os amigos e fugir desse tédio, dessa obrigação maçante.
Que muitos têm essa mesma imagem da família e do Natal, não duvido. Mas como não sentir pena deles? E como não lamentar que, em vez de olhar em volta para perceber que nem todos sofrem da mesma maneira, essa gente prefere projetar suas frustrações familiares no mundo todo? Depois, em suas famílias disfuncionais, no quarto ou quinto casamento, passam a destilar ódio à instituição em si, em vez de olhar para dentro em busca de respostas.
Eis uma tática muito comum – e bastante infantil: apontar para as imperfeições de alguma instituição humana qualquer e compará-la com alternativas utópicas e idealizadas. A velha falácia do Nirvana. A Igreja tem padres pedófilos? Então vamos condenar toda a Igreja, desde sempre. Famílias destroçadas existem, com pais que batem na mulher ou até abusam das filhas? Então vamos jogar a família em si no lixo. Casamentos podem dar errado e ser motivo de profunda decepção? Então vamos atacar o casamento.
Não é o primeiro artigo que leio de Calligaris em que a família é alvo de duras críticas, como instituição em si. Curioso que muitas vezes noto nos psicanalistas as figuras menos “bem resolvidas” com o mundo real e suas imperfeições. Vejo muitos abraçando utopias infantis, pregando o socialismo, endossando a libertinagem em nome da “liberdade” ou em evidente crise de meia-idade. Agem de forma imatura, e não conseguem fazer o luto da infância que descobre a falibilidade paterna.
Também percebo, como fruto da imaturidade, a completa falta de limites, de freios, justamente de quem não suporta a figura da Lei, do Pai. Muitos parecem os eternos adolescentes em rebeldia contra as regras impostas pelo pai. Por isso demonstram pouca capacidade de compromisso, de permanecer no mesmo casamento, ou de aceitar certas obrigações sociais com o devido respeito a elas. Precisam destruir toda a ordem: tornam-se “desconstrutivistas”.
Avacalhar o Natal e os encontros familiares não é novidade. O personagem Scrooge, de Dickens, já captura bem esse perfil. Resta saber o que fazer diante da descoberta de um mundo imperfeito. Alguns agem como crianças mimadas e birrentas, e passam a detonar tudo, flertar com o niilismo, com o hedonismo desmedido, com o “vale tudo” e cada um por si. Outros amadurecem, e usam a imaginação moral para enaltecer as instituições louváveis, apesar de seus claros defeitos e limitações.
A família não é um foco de intrigas, brigas, “drama farsesco”, ou ao menos não só isso ou não principalmente isso. É, também, o núcleo de amor onde os filhos crescem, aprendem lições importantes, são educados, formados para a vida, absorvem a necessidade de limites e de respeito, inclusive às obrigações e tradições. Não é por acaso que todo regime totalitário mirou no núcleo familiar como alvo principal: ele oferece uma resistência aos anseios de controle absoluto por parte do poder, do estado.
Claro que há famílias em que o pior é realçado, e talvez Calligaris tenha tido uma experiência dessas. Mas, em vez de meter o pau em toda família, talvez ele devesse voltar para o divã, analisar melhor o que está por trás desse ódio. O risco, naturalmente, é o terapeuta ser como ele, relativizar tudo, subverter a moral, e falar que tanto faz, que, afinal, pai e mãe são apenas acidentes biológicos que não escolhemos, e vida que segue.
Vou passar esse Natal com amigos de longa data, e estou feliz por isso. Mas encaro a situação como substituta daquela que realmente gostaria: estar ao lado dos meus familiares, fortalecendo os laços, alimentando essa tradição que vem desde quando nasci, inclusive no que engloba a tia “chata” ou o tio “careta”. Faz parte do pacote, e ele é muito positivo!
Talvez eu tenha dado mesmo muita sorte de ter uma família legal, já que família não se escolhe. Mas uma das melhores coisas que minha família tem, e que por isso mesmo, acredito, é tão boa, é justamente o “senso de família”, a ideia de que irmão é irmão, pai é pai, mãe é mãe, e devemos estar todos unidos, juntos, venha o que vier.
Uma pena Calligaris e tantos outros não terem tido isso e não valorizarem isso, para que possam tentar remediar o mal daqui para frente, lutando para construir famílias melhores, em vez de simplesmente abdicar delas em prol de amigos, de forma egoísta como quem acha que dar vazão aos apetites do momento é sempre o ato mais nobre.
Feliz Natal a todos, especialmente aos que vão aproveitar cada momento com seus familiares!

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