14 de junho de 2026
Mary Zaidan

Tem caroço nesse angu

“Amigos” de Vorcaro respiram aliviados com as recusas às propostas de delação do ex-banqueiro

Daniel Vorcaro é mesmo um fenômeno. Tudo nele e no seu entorno é inusual. Sua fortuna espetacular construída em tempo recorde, a intrincada manipulação de fundos de mentirinha, sua poderosa rede de influência comprada por fartura de dólares, mimos e luxos. Não seria diferente com as investigações dos seus delitos, tampouco com a sua delação. E as duas frentes parecem estar, propositadamente, emperradas.

O ex-dono do Master é um jogador – e um mentiroso contumaz. Ainda que seja difícil crer no que ele diz, a lógica aponta que qualquer possibilidade de provas sobre pagamentos feitos por ele em troca de favores milionários deveria ser aproveitada. Mas seu processo de delação se difere de todos os outros que o país conheceu.

Usualmente, uma proposta de cooperação não é desprezada a priori. Costuma-se preferir aceitá-la, no máximo exigindo ajustes. Até porque os investigadores nada têm a perder, pois, mesmo frágil, a colaboração pode ajudar a unir algumas pontas. E sem riscos, porque qualquer benefício prometido se torna inválido quando um delator não responde às questões formuladas ou não apresenta os comprobatórios do que diz. Com Vorcaro, a rotina se inverteu.

Sua delação tem sido rechaçada de pronto, sem chances de interrogatórios e de se averiguar a veracidade de eventuais provas. O relator do caso no STF, ministro André Mendonça, foi um dos primeiros a tornar pública a posição de que não daria o seu aval a uma proposta que não trouxesse “novidades”, como se as falcatruas em série do caso Master já fossem amplamente conhecidas – e os suspeitos, indiciados.

Horas depois de a Polícia Federal rejeitar oficialmente a segunda proposta de delação do ex-banqueiro, sob o argumento de que ela não trazia nada de novo, parte do documento vazou. Segundo a revista Veja, Vorcaro teria se comprometido a indicar o caminho de US$ 30 milhões depositados no exterior para o presidente do Senado Davi Alcolumbre (União-AP). Com as devidas provas, de acordo com os seus advogados.

A notícia é no mínimo incômoda para os investigadores. Até então, o senador amapaense não estaria formalmente na lista de suspeitos, e, ao que parece, a PF descartou incluí-lo a partir de informações de Vorcaro. Também não teria se interessado pela suposta rota do dinheiro, que Alcolumbre nega com veemência que tenha recebido. Tudo para lá de estranho. Até porque a mesma PF já mapeou o rombo de R$ 400 milhões no fundo de previdência do Amapá (Amprev), no qual o ex-diretor, Jocildo Silva Lemos, foi indicado ao cargo pelo senador.

Há mais de 15 fundos estaduais na mira das investigações, sendo o mais vistoso deles o RioPrevidência, cuja aplicação no Master bateu em R$ 970 milhões, com negociatas que teriam tido aval do ex-governador Cláudio Castro. Continua-se ainda o escrutínio das relações perigosas com o BRB. Outros graúdos aparecem na decupagem de celulares de Vorcaro apreendidos pela PF. Mas é pouco para indiciar terceiros. Todos os lados sabem disso.

Políticos “amigos” do ex-dono do Master respiram aliviados com as recusas da delação. O mesmo deve estar ocorrendo no ambiente Supremo. Por lá, o caso bateu nos ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, e pelo menos outros dois seriam delatados na proposta de colaboração indeferida.

Os advogados insistem na consistência da proposta recusada pela PF, que ainda está sob análise da Procuradoria Geral da República. Nela, Vorcaro também teria fornecido mais informações sobre as relações com os petistas baianos Jaques Wagner, iniciada em 2007, e Rui Costa. E detalhes dos rolos com os presidentes do União Brasil, Antônio Rueda, e do PP, senador Ciro Nogueira (PI), a quem o generoso ex-banqueiro teria pago mesadas de R$ 300 mil a R$ 500 mil, jantares nababescos e deliciosas estadias em hoteis de altíssimo luxo em Nova York.

Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República, seria outro capítulo. Pouco se tem notícia do desenrolar das investigações sobre o senador. Desde que Vorcaro foi preso, Flávio negou qualquer relação com ele, taxando de absurda a afirmativa de que o ex-banqueiro financiara o filme sobre o seu pai. Depois foi flagrado em conversas e até visita à casa do ex-Master. Toda a nefasta transação, incluindo a absurda quantia de R$ 134 milhões para custear o filme, dos quais Vorcaro pagou R$ 61 milhões, sem, segundo Flávio, exigir nada em troca, nem mesmo o nome do banco como patrocinador, só veio à tona pelo jornalismo do Intercept. Até então, Flávio tem sido poupado de um depoimento formal.

Ainda que não pairem dúvidas sobre a competência ou o empenho da instituição Polícia Federal, há brigas internas, desconfianças e pressões vindas de todos os lados para embaralhar as investigações. De concreto sabe-se apenas que sem acordo nem a PF nem a PGR poderão utilizar os anexos da proposta de delação – incluindo as eventuais provas. Tudo muito a contento dos implicados.

Mary Zaidan

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

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Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

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