17 de abril de 2026
Luiz Philippe de Orléans

Só teremos Justiça com impasse

Por complacência, o Brasil segue sem resolver injustiças. Sem impasse diante do erro, a justiça dificilmente se tornará um valor central. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

Recentemente, acompanhei as análises de um sociólogo americano que, em passagem pelo Brasil, ofereceu seus pareceres sobre a nossa sociedade em comparação à norte-americana. Ele destacou diversos pontos positivos: somos um povo unido por uma “emoção de massa”, com uma vida intrinsecamente comunal e grupal.

No Brasil, as famílias expandem-se com facilidade para incluir aqueles que não compartilham o mesmo sangue; a amizade é um processo facilitado. Há, sem dúvida, virtudes notáveis em nossa hospitalidade.

Contudo, o estudioso apontou um contraponto crítico. Segundo ele, quando um norte-americano se confronta com uma injustiça — seja ela coletiva, individual, no âmbito dos negócios ou na relação com o Estado —, cria-se um impasse impenetrável.

Forma-se um bloqueio que gera um conflito, o qual precisa ser obrigatoriamente resolvido para que a relação prossiga ou tome outro rumo. Nos Estados Unidos, do ponto de vista social, é inadmissível manter um vínculo após a ocorrência de uma injustiça, pois esta é lida como uma quebra fundamental de contrato e de confiança.

Em contraste, o sociólogo observou que o brasileiro destoa completamente desse rigor. Ele afirmou que nós não resolvemos as nossas injustiças. Diante de problemas contratuais, governamentais, coletivos ou mesmo relacionais, o brasileiro não se importa em dar continuidade às relações, ignorando o agravo cometido. Ele simplesmente segue adiante.

Complacência e a mudança do comportamento

Pode-se construir a ideia de que essa característica é positiva, pois “pacificaria” a sociedade. Todavia, sob a ótica dele — e sob a minha também —, este é o fator que mais nos prejudica. É esse comportamento que nos leva a aceitar o inaceitável e a tolerar aquilo que nos destrói, incluindo vícios e uma série de mazelas pessoais.

Ao não confrontarmos esses problemas de uma vez por todas, falhamos em estabelecer o império da justiça

É urgente questionar: como edificar tal império se o comportamento da população não condiz com a necessidade visceral de construir a justiça, preferindo conviver com o erro?

Para aprofundar essa reflexão, abordarei dois pontos. O primeiro, de ordem comportamental; o segundo, focado nos valores de base. Sobre o comportamento, reitero o que já destaquei em outros artigos: ele não define a cultura em sua totalidade, mas é parte dela.

A cultura é abrangente, englobando religião, mitos, tradição, língua e história compartilhada. Muitos desses aspectos são mutáveis, e o comportamento é, talvez, um dos mais fáceis de transformar.

Um exemplo prático: se, em nossas cidades, a aplicação de multas fosse implacável toda vez que um cidadão retirasse o carro da garagem indevidamente, criar-se-ia o hábito — e, eventualmente, a cultura — de não cometer tal infração. Observamos isso claramente quando um brasileiro emigra para os Estados Unidos ou para a Europa.

É notável como ele se adequa. Aquele que aqui desobedece às leis subitamente conforma-se à ética e ao rigor do novo contexto. Isso prova que o comportamento é mutável e responde a incentivos claros, tanto do governo quanto da própria cobrança social. Existe, portanto, esperança.

Justiça tem que ser valor de base: raízes históricas

O segundo ponto reside no “valor de base”: aquele princípio sine qua non para o qual a sociedade se projeta. Historicamente, no Brasil, a justiça nunca foi um valor preponderante. A justiça faz parte da ordem natural, porque preserva a vida. O senso de justiça em nossa terra nunca aflorou no passado como está aflorando agora.

O que testemunhamos neste início de século XXI é o amadurecimento da sociedade brasileira. Pela primeira vez, o valor de base da justiça se faz sentir como uma necessidade absoluta que cresce em nosso âmago.

No passado, convivíamos com injustiças sob o manto de uma baixa consciência e da descrença na possibilidade de mudança. Contudo, hoje estamos capacitados por tecnologia, difusão de informações e educação. Uma parcela consciente da sociedade já não abre mão de buscar a justiça.

Vejamos o protagonismo que o combate à corrupção assumiu a partir de 2010. Os escândalos deixaram de ser apenas notícias para se tornarem motores de mobilização, galvanizando a opinião pública e alterando escolhas eleitorais e regimes de governo.

O combate à corrupção tornou-se central porque a justiça está se tornando o eixo da nossa sociedade

Enquanto Europa e Estados Unidos confrontaram essa questão precocemente — na Idade Média europeia ou na expansão para o Oeste americana, onde a figura do xerife era o herói necessário para sustentar a civilização —, o Brasil seguiu um caminho distinto.

Confronto necessário para escrever um novo capítulo

Nossa experiência histórica foi marcada por um poder centralizado e amadurecido que aportou aqui em 1808. Herdamos uma burocracia qualificada de Portugal, e o ordenamento jurídico nos foi imposto de cima para baixo.

Nunca houve a necessidade social de se lutar pela justiça nas bases, pois ela já nasceu burocratizada e estatal. Fomos moldados por uma estrutura semelhante à do Império Romano, onde a ordem vinha do topo, e não do clamor popular.

Entretanto, o cenário atual não permite mais essa passividade. Diante dos eventos recentes, dos escândalos sucessivos e de gestões que deterioraram o senso de equidade, fica claro que, se a sociedade não lutar pela justiça, o Estado certamente não o fará por iniciativa própria.

É imperativo compreender que a justiça deve ser o nosso novo valor de base. Precisamos reavaliar nosso comportamento diante das pequenas e grandes injustiças que permeiam nosso cotidiano.

É hora de cobrar e exigir rigor em todos os níveis: individual, coletivo, comercial e governamental. Precisamos, enfim, aprender a gerar o impasse e a travar o que está errado. Somente através do confronto com a injustiça poderemos, verdadeiramente, inaugurar o próximo capítulo da nossa experiência como nação.

Fonte: Gazeta do Povo

Luiz Philippe de Orléans

Luiz Philippe de Orleans e Bragança é deputado federal por São Paulo, descendente da família imperial brasileira, trineto da princesa Isabel, tetraneto de d. Pedro II e pentaneto de D. Pedro I, sendo o único da linhagem a ocupar um cargo político eletivo desde a Proclamação da República, em 1889. Graduado em Administração de Empresas, mestre em Ciências Políticas pela Stanford University (EUA), com MBA pelo Instituto Européen d'Administration des Affaires (INSEAD), França.

Luiz Philippe de Orleans e Bragança é deputado federal por São Paulo, descendente da família imperial brasileira, trineto da princesa Isabel, tetraneto de d. Pedro II e pentaneto de D. Pedro I, sendo o único da linhagem a ocupar um cargo político eletivo desde a Proclamação da República, em 1889. Graduado em Administração de Empresas, mestre em Ciências Políticas pela Stanford University (EUA), com MBA pelo Instituto Européen d'Administration des Affaires (INSEAD), França.

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