10 de julho de 2026
Luiz Philippe de Orléans

O presidente ideal: aquele que não governa

O erro do Brasil é o poder concentrado em Brasília: presidente demais, Estado demais. Sem descentralização, governar vira ilusão e risco permanente. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

Entra governo, sai governo, e a população é levada a escolher o impossível: quem é o melhor para governar o Brasil? Nessa pergunta reside não somente uma expectativa que será frustrada, mas também o grande erro estrutural de nosso sistema. Qual o erro? O Presidente não deveria governar o país. Essa função deve caber aos governadores e prefeitos de cada estado.

O Presidente ideal deveria apenas estabelecer as linhas de atuação na política externa e na defesa e, quando necessário, agir para manter a estabilidade e a ordem política e econômica. Governar, jamais.

Em outras palavras, o presidente que quer governar todo o país, estabelecendo políticas nacionais de toda sorte, interferindo nos governos locais a todo momento, achando que ele é mais qualificado do que todos e que é de Brasília que se resolvem os problemas da nação, é o maior de nossos problemas; um risco sistêmico tremendo que todos nós alimentamos sem discutir.

Causa-me profundo dessabor observar que todos os candidatos à presidência se julgam aptos a governar o país. Para quem conhece as entranhas do Estado e a ineficiência estrutural do governo federal, essa pretensão é, no mínimo, fantasiosa. Ela é agravada quando se viaja pelo país e percebe-se a imensa diversidade do nosso país. Ou seja, as razões que sustentam todo o poder em Brasília simplesmente não existem.

Planejamento central nunca foi eficiente, nunca funcionou e nunca irá funcionar. E é isso o que, infelizmente, temos e tentamos fazer funcionar a cada mandato presidencial

Na verdade, precisamos exatamente do oposto: um líder que não queira governar, mas que inicie um processo irreversível de transferência de poder para os governadores e suas assembleias estaduais.

A Era do Superpresidencialismo

Embora a Constituição de 1988 tenha sido considerada por muitos como parlamentarista, principalmente por quem pouco a analisou, o que testemunhamos de lá para cá foi o reforço sistemático do Judiciário e do Executivo, enfraquecendo o Congresso e criando o que chamo de modelo “superpresidencialista”. O Executivo hipertrofiou-se, especialmente nos anos 90, por meio das agências reguladoras.

Essas autarquias — como Anvisa, Anatel, Aneel, ANA, ANM, Anac, Ancine, CADE, dentre outras — além de dezenas de conselhos, departamentos e institutos federais, assumiram poderes regulatórios, fiscalizadores, tarifários e até mesmo punitivos, que antes eram atribuições do Congresso. Essas diversas instituições passaram a agir quase como “mini-ditaduras” de seus setores.

Como suas cúpulas são nomeadas diretamente ou influenciadas pelo Executivo, o Congresso perdeu a relevância de legislar muitos desses temas que, à bem da verdade, sequer deveriam ser tratados em Brasília.

O resultado desse poder concentrado, não eleito, é perfeito para virar moeda de troca: primeiro, há o efeito “porta giratória” (empresas nomeiam o regulador amigo, e o regulador amigo depois vira empresário), que já virou norma. Segundo, há o loteamento de cargos, em que grupos políticos usam esses postos para desvios, coação e financiamento de vitórias políticas. Mas o Executivo não foi o único a crescer.

Os “Zé Baratas”

A outra face dessa concentração está no Judiciário. Resultado de uma campanha corporativista de sucesso, o Judiciário acumulou poder gradualmente nos últimos 30 anos. Hoje pratica ativismo judicial e interferência arbitrária, sem freios, como uma junta ditatorial; tudo aprovado efusivamente pelo Parlamento. E por que o Parlamento entregou todo esse poder ao Judiciário? Foi pela coação, corrupção e ignorância dos “Zé Baratas” que elegemos ao Senado ao longo das últimas legislaturas.

Esses “Zé Baratas” nada entendem de Estado de Direito ou separação de poderes — conceitos que, aliás, não fazem parte do DNA dos nossos senadores. E, se sua formação é no Direito, o quadro é ainda mais desesperador, pois muitos juristas se formam achando que a Constituição de 88 foi uma “vitória do cidadão”, quando só há evidências apontando para o contrário. A concentração e a centralização de poder são a base de toda ditadura, e ditadura é sinal de falência institucional.

Hoje, o presidente e o Judiciário interferem em tudo o que ocorre em nosso país continental. Mas a verdade é que nenhuma instituição, muito menos uma só pessoa, é capaz de gerir o país com eficiência. A proposta é clara: o presidente deve se demover de poderes e focar apenas no que é estritamente federal:

– Diplomacia: o Brasil precisa de uma representação única perante o mundo. Isso só um poder central pode fazer e nunca delegar.
– Forças Armadas: outra função que não pode ser delegada, mas que hoje padece de obsolescência, foi contaminada ao longo de 30 anos de esquerda sistemática e precisa de reformas urgentes.
– Estabilização institucional: manutenção do sistema entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e demais poderes que possam surgir, sem se envolver nos detalhes do governo efetivo.

O que deve sair de Brasília

Para o Brasil florescer, o governo federal precisa se desvencilhar de obrigações que seriam melhor geridas localmente:

– Previdência: o modelo federal é péssimo e está em crise; a diversidade regional exige soluções descentralizadas. Aliás, a crise do modelo previdenciário estatal é mundial.
– Educação: o Ministério da Educação é recordista de investimentos bilionários com resultados pífios, fruto de uma ideologia centralizadora que sufoca novos modelos.
– Saúde: o modelo do SUS, tal como está, é ineficiente, gera filas e corrupção, e nunca cessarão os desvios e distorções. Precisamos de alternativas regionais abrangentes.
– Assistencialismo: a assistência aos carentes deve ser local e temporária. Planos nacionais tendem a se tornar permanentes e burocráticos.

A grande barganha do presidente

O próximo candidato à presidência não deveria prometer soluções mágicas vindas de Brasília. Imagine o poder de barganha de um presidente que assumisse o cargo com a missão de não governar, mas sim de se destituir de competências e transferi-las para o Parlamento e para os Estados, transformando-se, por consequência, em uma espécie de ombudsman que respondesse às queixas e denúncias dos eleitores.

Que reformas esse presidente poderia barganhar nessa troca? Todas. Sem exceção. Teria o poder de pedir uma revisão constitucional completa, pois naturalmente teria o apoio do Congresso e dos governadores.

Poder concentrado gera intensa competição por ele e é um dos principais geradores da nossa instabilidade política

Todos estão correndo atrás do controle político de trilhões de reais da renda dos eleitores. Já o poder compartilhado e difuso desincentiva os bandidos e candidatos a ditadores megalomaníacos. Ademais, gera estabilidade por meio dos freios naturais de um sistema que precisa de discussão e acordo para se governar.

Precisamos de um presidente que tenha a lucidez de descentralizar o comando de Brasília e a humildade de reconhecer que sua missão de governar todo o país é impossível. Se esse candidato aparecer, terá o maior poder de barganha que um presidente jamais teve na história do Brasil republicano e deixará um legado geracional para si e para o povo brasileiro; basta que essa consciência brilhe no próximo candidato.

Fonte: Gazeta do Povo

Luiz Philippe de Orléans

Luiz Philippe de Orleans e Bragança é deputado federal por São Paulo, descendente da família imperial brasileira, trineto da princesa Isabel, tetraneto de d. Pedro II e pentaneto de D. Pedro I, sendo o único da linhagem a ocupar um cargo político eletivo desde a Proclamação da República, em 1889. Graduado em Administração de Empresas, mestre em Ciências Políticas pela Stanford University (EUA), com MBA pelo Instituto Européen d'Administration des Affaires (INSEAD), França.

Luiz Philippe de Orleans e Bragança é deputado federal por São Paulo, descendente da família imperial brasileira, trineto da princesa Isabel, tetraneto de d. Pedro II e pentaneto de D. Pedro I, sendo o único da linhagem a ocupar um cargo político eletivo desde a Proclamação da República, em 1889. Graduado em Administração de Empresas, mestre em Ciências Políticas pela Stanford University (EUA), com MBA pelo Instituto Européen d'Administration des Affaires (INSEAD), França.

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