23 de maio de 2022
Ligia Cruz

Toque de recolher quando novembro chegar

Foto: Arquivo Google – El País

O que vimos nas duas últimas semanas no STF é só mais uma comprovação de como os corruptos se protegem e formam alianças para defender corruptores e compadres. Personagens que se equivalem em peso e ouro e se retroalimentam em sociedades onde a cidadania é pouco evoluída ou simplesmente não existe. Aqui existe em tosca proporção, mas se agiganta quando o Brasil se enraíza pelos cantos dos confins.
Todo mundo por aqui conhece histórias onde só mudam os nomes. Aqueles personagens proeminentes de pequenas cidades, na figura de juízes, médicos, advogados, jornalistas, fazendeiros e políticos, que comandam comunidades como se fossem suas, vêm perpetuando por hereditariedade desde os tempos do Brasil Império. E para “tê-las” é preciso estabelecer uma relação de medo, subserviência e corrupção. O Brasil é assim e o mundo é feito disso.
Quando juízes pagos com dinheiro público, a serviço do país, se esgueiram pelas beiradas da sociedade para defender os direitos daqueles que os indicaram ao topo jurídico, é sinal de que o preço é alto e a justiça cega. Tudo pelo poder de subjugar e manter a vontade pública sob controle, ignorante e na servidão. Receita antiga que nem começou aqui mas que tem sido copiada exemplarmente.
A prisão de condenados por crimes de corrupção deveria ter um status mais gravoso, para que maus servidores não sejam tentados a transgredir. O mínimo que o país merece ter é a certeza de que toda essa bandalheira que foi armada no Brasil nos últimos anos chegou ao fim. Portanto, deixar os criminosos livres de penas, enquanto podem entrar com infindáveis recursos até que se esgotem as instâncias, é um afronta àqueles que foram vítimas dos precários serviços públicos.
Ademais, milhões são jogados pelo ralo cada vez que a Corte Suprema se senta para debater interesses individuais. É indigno testemunhar retóricas preciosistas justificadas por interpretações pessoais da carta magna. E pelo que se apresenta é o que vai imperar. A prisão em segunda instância vai virar pó.
A apresentação de provas vai virar aberração. Nenhum criminoso será preso enquanto houver embates jurídicos e os criminosos puderem pagar advogados estrelados para esticar suas defesas. É um prêmio à transgressão, bem diferente do que se quer fazer parecer.
Nem carece esperar novembro chegar para ter certeza de que todos os réus presos após segunda instância passarão o Natal em casa tomando Prosecco e comendo lagosta.
Corruptos e corruptores vão continuar fazendo o que sabem e o restante dos criminosos vai se beneficiar.
Traficantes, estupradores, feminicidas, homicidas, ladrões e golpistas estão todos felizes com a decisão dos magistrados. E o Lula também. Toque de recolher para a sociedade.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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