24 de maio de 2022
Sergio Vaz

Walter Franco, o zen irrequieto

Perder Walter Franco dá uma dor canalha. Mas tudo é uma questão de ter o coração tranquilo.

A música popular brasileira é uma coisa tão absolutamente rica, ampla, multifacetada, poderosa e, ao mesmo tempo, o Brasil é tão doido, que um compositor brilhante, genial, respeitado desde o primeiro momento pelos grandes e pela crítica, consegue a proeza de ficar conhecido como o mais maldito dos malditos.
Para mim, a perda de Walter Franco dá uma dor canalha. Mas, ao mesmo tempo, a gente sabe que tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.
Tenho muitos ídolos no cinema, na literatura, no jornalismo, na música. Tenho admiração profunda por uma vasta gama de músicos, de Bob Dylan a Jacques Brel, de Paul McCartney a Chico e Caetano, dos irmãos Gershwin a Joan Baez, de Dorival Caymmi a Victor Jara, de Nara Leão a Joan Manuel Serrat, para citar só uns poucos – mas por Walter Franco sempre tive uma admiração um tanto especial. Talvez até pelo fato de ele não ser tão amplamente badalado quanto os grandes citados aí acima. Uma admiração meio assim como a por um irmão mais velho – e, claro, com o talento que nunca tive.
E é uma admiração desde sempre. De Walter Franco posso dizer quase literalmente que sou fã desde criancinha. Bem, quase. Desde que ele apareceu, e eu tinha 22 aninhos e ainda a certeza de que dava pra gente mudar o mundo.
Depois de bem maduro, durante um bom tempo pensei em procurar Walter Franco e me oferecer para escrever a biografia dele. Teria feito isso se tivesse coragem. Se fosse organizado, sistemático, metódico – e não dispersivo, desatento, desconcentrado como sou.
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Walter Franco explodiu na MPB como um fenômeno maluco, inesperado, fora de prumo, fora de ordem. Apareceu no período de ressaca mais brava da História, tanto do Brasil quanto da música e da cultura brasileira de maneira geral – o início dos anos 70, pós a euforia das músicas “de protesto”, que trouxeram para os ouvidos da classe média tanto a música do morro quanto a nordestina, pós os grandes festivais e a chegada da geração de ouro de Chico, Caetano, Milton, Gil, Edu, Egberto, Nara, Bethânia, Gal, Elis. Pós Ato 5, o golpe dentro do golpe, o recrudescimento da ditadura, a luta armada, a tortura e a morte nos porões dos quartéis.
Não se faziam mais festivais como os da TV Record ou os primeiros FICs – foi no III Festival Internacional da Canção, em setembro de 1968, poucas semanas antes do AI-5, que Tom Jobim e Chico foram vaiados com “Sabiá” porque o público do Maracanãzinho preferia “Caminhando” de Vandré. Aquele foi, ao mesmo tempo, o auge e o fim de um ciclo.
E no entanto era preciso cantar, e então faziam-se novos festivais – mesmo com Chico, Caetano, Gil e Vandré, entre outros, no exílio, e com a Censura capando tudo o que não deveria jamais ser capado.
E foi num FIC, o sétimo e último, em 1972, que Walter Franco surgiu com sua “Cabeça”. E que cabeça, irmão!
A letra era esquisita, inusitada, anti-poesia, a coisa mais anti o amor o sorriso e a flor que poderia haver – uma provocação, uma boutade:
Que é que tem nessa cabeça, irmão / que é que tem nessa cabeça, ou não. /
Que é que tem nessa cabeça saiba, irmão / que é que tem nessa cabeça saiba ou não. / Que é que tem nessa cabeça saiba que ela não pode irmão /
que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não. / Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir, irmão.
Mas o pior não era a letra – era a forma com que o cantor-compositor a apresentava. Era uma “não canção”, como muito bem definiu Thales de Menezes em texto sobre a morte do artista, neste 24 de outubro, no site da Folha de S. Paulo: “delirante, com frases musicais interrompidas e versos quebrados, sobrepostos, confuso como seria uma cabeça de ideias incontroláveis”.
O júri era finíssimo – Nara Leão, o poeta concretista Décio Pignatari, o psiquiatra escritor Roberto Cléo e Daniel Freire, os maestros Júlio Medaglia e Rogério Duprat, o homem do plá, o George Martin do tropicalismo –, e botou em “Cabeça” na cabeça. Mas se o público dos festivais – jovem, universitário, bem alimentado, mas só disposto “a enfrentar hoje o velhinho inimigo que morreu ontem” – já havia em 1968 vaiado o “Proibido Proibir” de Caetano, imagine-se um troço como aquilo. Foi uma vaia tão grandiosa que os organizadores do festival desfizeram o júri e premiaram “Fio Maravilha”, de Jorge Ben.
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Que é que tem nessa cabeça – ou não. “Cabeça” apareceu pouco depois do festival como a última faixa do primeiro álbum de Walter Franco, um disco (da gravadora Continental) tão corajoso, insólito, que até a capa era surpreendente. Uma capa branquinha, branquinha – com a foto de uma mosca bem no meio. No centro da contracapa, igualmente branca, que nem o Álbum Branco dos Beatles, de 1968, pequenino, o título: ou não. Assim. Em minúsculas.
A sua cabeça pode explodir, irmão. Ou não.
ou não é, muito provavelmente, até hoje, tantas vanguardas tornadas velharias depois, o disco mais ousado, mais doidão, mais chocantemente desafiador da história da música brasileira.
Walter Franco se mostra nele um extraordinário violonista – e um cantor que sabe usar a voz nos mais diferentes estilos, tonalidades. A voz vai do sussurro ao berro, e tanto canta quanto se transforma em instrumento de percussão – um impressionante, maravilhoso instrumento de percussão. Naná Vasconcelos com certeza adoraria.
Sim, há influência do experimentalismo dos Beatles. Há momentos em ou não que fazem lembrar “Revolution 9”, do Álbum Branco, a faixa mais chata de toda a discografia dos Beatles, em que John Lennon fazia as experiências sonoras que desenvolveu no álbum em que aparece pelado na capa ao lado de Yoko, Unfinished Music No.1: Two Virgins. Há momentos chatos, sim – mas também há outros gloriosos, sensacionais.

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Naquele mesmo ano em que ou não foi lançado, 1973, Raul Seixas veio – no fantástico, sensacional Krig-ha, bandolo!, o álbum que tem “Ouro de Tolo” – com “Mosca na sopa”. Não tenho elementos para afirmar qual disco chegou às lojas primeiro, se o que tinha a mosca na capa branca, se o que tinha a mosca na sopa, mas a verdade é que foram dois discos de profunda rebeldia num dos períodos mais trágicos, mais tristes da História do Brasil, o período Garrastazu Médici.
Três, na verdade, porque é preciso incluir aí na lista o Araçá Azul, de Caetano Veloso – o disco que é, sem qualquer sombra de dúvida, o mais ousado, experimental e anticomercial de toda a longa e sagrada carreira do compositor. Araçá Azul demonstra, também, influência do experimentalismo dos Beatles em “Revolution 9”. Mas demonstra ainda mais claramente a influência de ou não. Não sei se Caetano admitiria isso, mas creio que, se Walter Franco não tivesse feito ou não, Caetano não teria feito Araçá Azul.
Walter Franco influenciou Caetano – e foi gravado por Chico.
Durante um bom tempo, os fãs de MPB se dividiram entre caetanistas e chiquistas, como se fossem coisas excludentes o culto a um e o culto a outro. Mais ou menos como gerações e gerações se dividiram entre Beatles e Stones. Ou entre lennonistas e macartneyistas. Tudo isso uma grande bobagem – mas acho fantástico o fato de que os dois mais importantes, mais influentes, mais marcantes cantores-compositores surgidos na MPB nos últimos 50 anos, Chico e Caetano, tenham, cada um de seu jeito, demonstrado admiração por Walter Franco, “o mais maldito dos malditos”, como muito bem disse Thales de Menezes em seu texto na Folha.
A homenagem de Chico Buarque veio no ano seguinte ao de ou não, 1974, no álbum Sinal Fechado. Cantor quase exclusivamente de suas próprias composições, em 1974 Chico não conseguiu ter canções suficientes para gravar um álbum, porque a Censura proibia quase tudo que ele criava. Numa decisão ousada – e artisticamente muito bem sucedida –, o compositor gravou em Sinal Fechado quase só músicas de outros autores. (O quase vai por conta de “Acorda amor”, assinada por Leonel Paiva-Julinho da Adelaide, este último um sujeito que jamais existiu, uma invenção do próprio Chico.)
Entre canções de Caetano, Gil, Noel Rosa, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho e Tom Jobim – ou seja, a nata da nata da MPB –, foi incluída em Sinal Fechado uma das faixas de ou não, “Me deixe mudo”. Chico e Perinho Albuquerque, o arranjador do disco, retiraram os traços mais experimentais, e fizeram uma versão absolutamente tocável no rádio da maravilhosa música de Walter Franco.
Não tocou muito no rádio.
É. Só mesmo no Brasil um compositor que tem a admiração de Chico, Caetano, Nara, Décio Pignatari, Roberto Freire, Júlio Medaglia e Rogério Duprat é o maldito dos malditos.
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É fascinante, delicioso, saborosíssimo ver como Walter Franco é ao mesmo tempo irrequieto, ousado, audacioso, experimental – e também zen.
Ao longo dos anos, o incendiário autor de ou não compôs alguns dos poemas mais zen da música brasileira. Alguns dos mantras mais belos da música popular – daqui, da Índia ou da Conchinchina.
A começar de seus dois hinos, seus lemas, seu temas, “Respire Fundo” e “Coração Tranquilo”, ambos do terceiro disco, de 1978:
Abra os braços,
Respire fundo
E corte os laços todos deste mundo
Com a sua imagem e semelhança
Nos mesmos traços de uma criança
Muito mansa e muito louca
Com a sua voz na minha boca
Há um segundo, Jesus Cristo
Por todos nós, por tudo isso.
E
Tudo é uma questão de manter
A mente quieta,
A espinha ereta
E o coração tranquilo.
‘Coração Tranquilo” é o que há. Dalton Trevisan, o vampiro curitibano que escrevia contos curtíssimos e estava sempre cortando mais uma palavra daqui e outra dali dos seus textos já publicados, e dizia querer chegar à perfeição dos hai-kais, teria aplaudido de pé “Coração Tranquilo”. Apenas quatro versos, repetidos algumas vezes, diversas vezes – até porque as coisas perfeitas devem mesmo ser repetidas.
Tudo é uma questão de manter
A mente quieta,
A espinha ereta
E o coração tranquilo.
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O Walter Franco de Walter Franco, o disco número 3, o de 1978, o que tem “Respire Fundo” e “Coração Tranquilo”, é muitíssimo diferente daquele de 1972, 1973. Aquele lá, o de “Cabeça” no sétimo FIC e do álbum ou não, era, além de experimentalista, ousado, iconoloclasta, rebelde a não poder mais, um sujeito cabeludo e barbado, que mal mostrava o rosto. O Walter Franco de 1978 era um sujeito que exibia com visível orgulho o rosto e também o corpo inteiro, em uma sunguinha gabeiriana em uma das fotos do encarte. Ao contrário do primeiro disco, em que havia pouquíssimos músicos, o de número três tinha um monte de convidados. E, meu Deus do céu e também da terra, raríssimas vezes um único disco reuniu tantos músicos extraordinários.
Walter Franco 1973 tem Sivuca, Geraldo Azevedo, Chico Batera, Sérgio e Arnaldo Dias Baptista (sim, dois terços de Os Mutantes), João Donato, Nivaldo Ornellas, Djalma Correia, Altamiro Carrilho, Márcio Montarroyos, Jacques Morelembaum e Zé Ramalho (como instrumentista, que é bom pra cacete, e não como cantor, que é um horror).
Digito o nome dessas pessoas e mais uma vez me assombro: meu, o time que Walter Franco conseguiu reunir para tocar em seu terceiro disco é o dream team de qualquer cantor-compositor brasileiro naquele início de anos 70. Nem Chico, nem Caetano, nem Gil, nem Milton – nenhum deles reuniu tanta gente boa ao mesmo tempo em qualquer um de seus discos.
***

Entre ou não de 1973 e Walter Franco de 1978 houve revolver, de 1975. Meu, que disco! A começar do título, em caixa baixa, revolver – não revólver, substantivo, mas revolver, verbo. Grafia idêntica à do disco dos Beatles de 1966 – e, na capa, um Walter Franco em um terno branco idêntico ao que John Lennon usava na capa de Abbey Road, e com o cabelo quase igual ao dele, só que um pouco mais longo ainda.
Todo o revolver é uma maravilha, um encanto para quem tem ouvidos apurados e gosta do novo. De todas as canções, no entanto, a que mais me encanta é a que abre o disco, “Feito gente”, um rockão cru com uma letra daquelas de aplaudir de pé como na ópera, daquelas que Caetano e Chico seguramente gostariam de ter criado:
Feito gente, feito fase.
Eu te amei, como pude.
Fui inteiro, fui metade.
Eu te amei, como pude.
Fui a faca e a ferida.
Eu te amei como pude.
Feito bicho que se espanta.
Eu te amei como pude.
Quando chegam a morte e a vida
Feito lixo que se queima.
Eu te amei como pude.
Feito chama quando arde.
Eu te amei como pude.
Fui capacho, já fui lama.
Eu te amei como pude.
Fui herói, fui covarde.
Eu te amei como pude.
Feito a dor que cedo ou tarde.
Eu te amei como pude.
Dói o corpo e dói a alma.
***
Em 1979, um ano depois do terceiro disco, aquele dos hinos, dos mantras, Walter Franco – admirado pelos bons, mas poucos – resolveu participar de mais um festival. Inscreveu no Festival 79 da então TV Tupi uma canção estranha, esquisita, quase tão estranha e esquisita quanto “Cabeça”, chamada “Canalha”. Era um troço que vinha vindo como quem não quer nada, quase como uma suave balada – e de repente, no último verso, se transformava num grito primal, um berro lancinante, à la Arthur Janov. Só no último verso:
É uma dor canalha
Que te dilacera
É um grito que se espalha
Também pudera
Não tarda nem falha
Apenas te espera
Num campo de batalha
É um grito que se espalha
É uma dor
Canalha
Walter Franco ter feito essa música para um festival é uma coisa absolutamente genial. Ele criou uma canção para berrar CANALHA – sabendo que o auditório se dividiria entre vaias e gente que berraria junto com ele. Não deu outra: “Canalha” foi a segunda colocada no festival.
***
“Canalha”, creio, foi o último berro do lado inquieto, irrequieto, iconoclasta, jovem rebelde de Walter Franco. Depois de fazer o auditório dar berro primal, concentrou-se no seu lado zen. Criou melodias maravilhosas, doces, suaves, como por exemplo a de “Serra do Luar” – de que Leila Pinheiro faria um cover que é chorar de emoção:
Viver é afinar o instrumento
De dentro pra fora
De fora pra dentro
A toda hora, todo momento
De dentro pra fora.
Fez uma canção que teria tudo, absolutamente tudo para virar um tremendo sucesso na rádio e na TV, “Vela Aberta”, melodia suave, linda, assobiável, letra assimilável por qualquer telespectador da Rede Globo. Não rolou – a não ser entre os que já amavam Walter Franco.
Leila Pinheiro se mostrou a cantora mais sensível, mais capaz de gostar e gravar as composições dele. Em 2005, em seu disco Nos Horizontes do Mundo, gravou – belissimamente – a canção que talvez seja o mantra que resume todos os mantras que Walter Franco compôs:
A 60 minutos por hora
sem pressa nem demora.
A 60 minutos por hora pela vida afora.
Venha, não tenha pressa
pra chegar a lugar nenhum.
***
Descanse em paz, Walter Franco. Aproveite e diga aí para o John Lennon, quando o encontrar, para ele ficar mais calmo, mais doce, mais suave. Cante “Coração Tranquilo” para ele.

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