Laerte Fernandes

Era um caráter sem mácula, um amigo de todos, um caiçara gentleman.

Educado. Simpático. Sempre sorridente. Prestativo. Discreto. Um gentleman. Um excelente caráter. É impressionante como os mesmos conceitos foram sendo usados nas últimas horas pelas pessoas que conviveram com Laerte Fernandes, ao saberem de sua morte.

E houve um fato que se repetia nas lembranças das pessoas: foi Laerte que as recebeu quando chegaram à redação do Jornal da Tarde.

Quando aquele bando de jovens chegou ao JT, foi recebido pelo melhor mestre de cerimônias que poderia haver.

É. De fato o JT era uma coisa meio parecida com um sonho.

“As primeiras pessoas com quem falei na redação do JT, no dia em que cheguei para trabalhar nos números zeros, em outubro (ou novembro?) de 1965, foram o Laerte e o Sandro”, Fernando Portela escreveu no nosso grupo de WhatsApp, de veteranos do JT, orquestrado pelo Mário Marinho. “Laerte já assumira a chefia da reportagem geral e recebeu os dois jovens candidatos. Sandro estava ao meu lado. Entramos praticamente à mesma hora. Tive a impressão de que conhecia Laerte há tempos. Ele tinha o dom de deixar seu interlocutor muito à vontade. Um diplomata. Ficamos amigos, naturalmente. Quem não ficaria amigo dele? Leal, bom caráter, competente, paciente. Não o via há muitos anos, mas nunca deixei de pensar, com carinho, no tempo em que estivemos juntos naquela equipe transformadora. O JT – sobretudo nos primeiros anos – deve muito a Laerte Fernandes. Nós devemos.”

 

 

     Laerte Fernandes 20 anos do JT. Data: 6/01/1986   Foto.: Claudine Petroli/Estadão.

“Que lamentável que não possamos nos despedir de quem a todos nós recebeu”, escreveu Moisés Rabinovici. “Era tão honesto e amigo que nenhum dos chefes de redação a quem serviu tirou-o do lugar que ocupava. Nunca se juntou a facções na empresa que ambicionavam o Estadão e a Agência Estado (ao tempo do Augusto Nunes). Torcia sinceramente pelo sucesso dos amigos. Boa pessoa, boa alma, sempre me dei muito bem com ele.”

Sérgio Rondino escreveu: “Laerte foi a primeira pessoa a me receber no JT, no início de 1967, quando fui pedir um estágio. Afável e simpático, fez comigo uma pequena entrevista. Uma segunda conversa foi semanas depois com o Mino Carta, dia em que o JT ganhou 2 novos focas, eu e o Armando Salem. Ainda me lembro do sorriso acolhedor do Laerte naquele primeiro dia. Que pena saber que se foi!”

“Foi meu guia, meu companheiro e consultor”, disse Luciano Ornelas. “O pai que tive aqui. Exemplo de bom caráter.”

“Faço meus e minhas todas as lembranças e todos os elogios acima relatados por todos do grupo”, escreveu Gabriel Manzano Filho. “Minha convivência com o Laerte, desde a primeira fase do JT, anos 60, foi de uma amizade e confiança mutua permanentes. Entre outras devo a ele uma de minhas várias voltas ao JT depois de ter saído pra outros mares da vida. Mas que isso, o que me fica é sua maneira atenciosa de ouvir, de ajudar, de resolver, seu olhar de irmão ao conversar. Saudades enormes, de fato.

Luiz Carlos Lisboa, o Doutor Lisboa, como o chamamos desde sempre, escreveu: “Repito o que todos disseram. Laerte Fernandes foi quem me recebeu na redação do JT há três ou quatro décadas, nem sei mais. Nos seus últimos cinco anos de vida convivemos como irmãos e vizinhos. Não conheci pessoa mais honesta, mais generosa, mais devotada ao que fazia. Boa viagem para a eternidade, meu querido irmão Laerte.!”

“Foi-se um homem bom”, disse Luiz Henrique Fruet. Serei sempre grato a ele, que foi quem me chamou de Porto Alegre para o JT, meio século atrás. Que descanse em paz!”

“Foi meu primeiro chefe, um homem gentil e amável que tratava seus focas com um carinho todo especial”, disse Evelyn Schulke. “RIP, querido Laerte.”

“Leio com emoção os depoimentos de todos que tiveram a ventura de ser fraternalmente acolhidos pelo querido Laerte”, escreveu Alberto Morelli. “Fui um deles. Seu traço de generosidade sempre encontrava um jeito diplomático e fraterno de solucionar as pendências e os conflitos numa redação plural como a do JT. À Cláudia envio meu abraço solidário e de conforto. Pois todos nos desejamos que pelos seus méritos somados, seu passamento possa ser cumprido com muita paz.”

Ao post que fiz no Facebook – “Um gentleman. Um caiçara gentleman. Caráter absolutamente imaculado” -, Beth Lopes acrescentou: “Você traduziu o que sempre foi o nosso querido Laerte. Vai fazer uma falta danada nesses tempos difíceis.”

“Que triste!”, disse Maura Fraga. “Me conduziu na Agência Estado. Um chefe e colega brilhante e gentil. Foram muitos anos de relacionamento, sem decepções. Meus sentimentos à família e aos amigos. Adeus, Laerte!”

‘Laerte foi generoso com cada um de nós”, disse Silvia Torika. “Recepcionava com afeto e delicadeza. Até um dia, Laerte Fernandes.”

Muitos, muitos, muitos colegas, companheiros, amigos expressaram sua admiração por ele – no grupo de WhatsApp, em posts e comentários no Facebook. Impossível reunir todos.

Conforta saber que o Mário Marinho, que tem sido o guardião da memória do JT, já está preparando uma edição do “JT Sempre” dedicada ao Laerte.

***

Eu também fui recebido pelo Laerte quando cheguei à redação do JT, em julho de 1970. Como havia feito a tanta gente antes, me recebeu com um imenso sorriso no belo rosto moreníssimo de caiçara, maneiras educadíssimas, tom de voz baixo.

Quando cheguei, Fernando Portela era o editor de Reportagem Geral, Sandro Vaia era o subeditor, Laerte era o chefe de reportagem. Sérgio Rondino era copydesk, o doutor Lisboa era editor de Internacional, o Moisés Rabinovici era repórter especial, o Luciano Ornelas nessa época creio que era subeditor de Esportes, Luiz Henrique Fruet era copy do Esporte se não me engano, e o Gabriel Manzano Filho era o editor do Resumo. Foi ele, o Gabi, que editou o primeiro texto jornalístico que fiz na vida, ao final daquele primeiro dia de redação, à qual cheguei por obra e graça do Gilberto Mansur, que na época… Diacho, não me lembro se em julho de 1970 o Mansur era copy da Geral ou sub do Resumo, mas não importa.

O que quis dizer é que cheguei depois de várias dessas pessoas que falaram bem do Laerte aí acima. Aprendi com cada um deles.

***

Muito tempo depois, mas muito tempo depois, tive a oportunidade de trabalhar bem próximo do Laerte. Foi a partir do segundo semestre de 1988, quando o Rodrigo Mesquita reformulou completamente a Agência Estado, levou o Sandro Vaia e o Elói Gertel para serem diretores, logo abaixo dele, e criou o mesão, que reunia, além deles três, Laerte, Júlio Moreno, Adhemar Oricchio e eu.

Ao Laerte, aquele gentleman, cabia fazer o contato diário com os correspondentes no exterior, para passar para eles as pautas pedidas pelos dois jornais, Estadão e JT, ouvir deles o que estava rolando de mais importante nos países em que trabalhavam. Era um time impressionante que incluía Moisés Rabinovici, Paulo Sotero, Gilles Lapouge, Reali Júnior, Napoleão Sabóia.

Outros queridos colegas passariam depois pelo mesão – Fernanda Andrade, Wanderley Midei…

Tive a sorte de conviver com aquele grupo de excelentes jornalistas no mesão da Agência durante uns dois anos.

Jamais ouvi Laerte alterar o tom de voz suave que o caracterizava. Jamais. Nem uma única vez.

***

A educação, a elegância dele passaram para a filha. Dá para ver isso pela mensagem que Claudia Fernandes escreveu no nosso grupo de WhatsApp:

“Faleceu ontem, 18 de agosto de 2020, meu grande e querido pai Laerte Fernandes, aos 83 anos, vítima de um AVC. Estava hospitalizado há quase 2 meses e hoje se liberta dos fios e de um corpo que já não respondia e não podia se comunicar. Segue meu pai, livre, luz!!

O velório seguido de cremação será realizado hoje 19 de agosto às 15h, no Memorial Parque Paulista .km 18 Regis Bittencourt Embu das Artes.”

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