11 de agosto de 2022
Colunistas Ligia Cruz

Desprezo à ciência nacional

Lamentável o que estão fazendo com o Instituto Butantan. Entidade séria, de mais de cem anos de história, berço de grandes nomes das Ciências, como Adolpho Lutz, Vital Brazil e Oswaldo Cruz.

Ninguém brincaria com a vida alheia lá. Portanto, o desenvolvimento da “Sinovac”, a  vacina, que está sendo testada em São Paulo, em parceria com a China, contra o Covid-19.

Afora fatos de corrupção com desvios de verbas, praticados por alguns funcionários que foram descobertos e punidos, não há nada que arranhe a reputação científica.

Ao contrário do que se imagina, a especialidade do Butantan não é só a produção de soro antiofídico, mas de outros animais peçonhentos e a produção de  biofármacos diversos.

O complexo do Butantan conta com um hospital, biblioteca, quatro museus, entre os quais, o Museu Biológico do Instituto Butantan, Museu Histórico, Museu de Microbiologia, Museu da Saúde Pública Emílio Ribas, além de serpentário, macacário, parques e unidades de pesquisas. Todos vinculados ao governo do Estado de São Paulo, mas que servem ao país.

O peso da excelência científica do Butantan, não surgiu do nada.

No final do século XIX, mais precisamente em 1898, para combater um surto de peste bubônica, no Porto de Santos, o governado paulista tomou a decisão de instalar laboratórios de pesquisas para produzir fármacos, capazes de debelar a doença. A preocupante situação não podia ultrapassar as fronteiras de Santos e ganhar contorno nacional, como ocorreu nos países europeus, na Idade Média, cuja devastação escreveu capítulos terríveis da história humana.

Isso levou à decisão de desapropriar a Fazenda Butantan para instalar laboratórios de fabricação de soro anti-pestoso. Seria um posto avançado de pesquisas do então Instituto Bacteriológico, que mais tarde seria batizado de Adolfo Lutz. A missão da pesquisa foi conferida ao seu assistente, Vital Brazil.

A iniciativa foi um sucesso. Com a ajuda do médico Oswaldo Cruz, a peste foi erradicada. Desde então a entidade passou a ser responsável por parte da produção de vacinas  e soros para todo o Brasil.

Por essa razão, voltando para os dias de hoje, essa polarização política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador João Dória é um desserviço à pátria, ao que a ciência brasileira vem fazendo pelo país há mais de cem anos.

Esta queda de braço, que tem como pano de fundo o brasileiro que paga impostos e faz a economia girar, não poderia ganhar contorno de psicopatias de parte a parte. Nenhuma instituição científica funciona para disputar egos, mas para trazer resultados em prol da saúde humana.

A última contenda entre ambos, nesta semana, rendeu capítulos vergonhosos numa guerra midiática que está longe de terminar. Os dois querem o protagonismo no resultado da melhor vacina para combater o covid-19 e decolar em céu azul à presidência em 2022.

O combate contra o vírus, que está matando impiedosamente pessoas de todos os níveis sociais, está longe de terminar e pouco está preocupando os opositores. O bate-boca está descendo ladeira abaixo, antecipando o clima que teremos daqui a dois anos. Baixaria, mais baixaria.

A morte de um dos 13 mil voluntários que concordaram em se oferecer para testar a vacina chinesa, como é conhecida a Sinovac, demonstrou isso e criou um solo pantanoso que levou a discussão a níveis patéticos, que pôs em cheque a reputação do Butantan, como se este fosse um mero argumento egoico de pré-candidatos à presidência.

O voluntário que morreu não teve morte diagnosticada em função da vacina, mas por suicídio. Só que até aí, a Anvisa, na pessoa de seu diretor-presidente, Antônio Barra Torres, suspendeu os testes apressadamente para desqualificar o Instituto e o governador. Teve seu breve momento de fama e caiu. Por pressão externa a entidade voltou aos estudos.

Ninguém vai tirar da cartola soluções a curto prazo. Não existe adivinhação. Seja da Pfizer, na Johnson, da AstraZeneca ou da Sinovac, todas passarão por processos, até a aprovação. Basta a tragédia em que se transformou o mundo por conta desse vírus maldito.

O protagonismo hoje tem que ser o combate à fome e o desemprego.

Qualquer outra coisa fora dessa agenda vai abalar a estrutura de qualquer país e nome de quem tiver atitudes desastradas.

Os excessos da política serão cobrados nas eleições.

E elas começam na semana que vem, nas cidades do paí

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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